segunda-feira, 26 de outubro de 2015

UM ÁS NA MANGA DE DEUS - A VERDADE SOBRE O SANTO SUDÁRIO

Gnosticismo
UM ÁS NA MANGA DE DEUS - A VERDADE SOBRE O SANTO SUDÁRIO
Muito se tem dito e escrito e até investigado sobre o santo sudario e acerca da sua veracidade. O que vai aqui ver talvez o impressione e até não seja do seu agrado, no entanto aqui tem revelada toda a verdade e um resumo de todas as investigações e teorias acerca deste que é o objecto mais sagrado do Cristianismo.

Texto: Português
Áudio: Castelhano
Fonte: Planeta Encantado - YouTube - Wikipédia


DOCUMENTÁRIO: 
UM ÁS NA MANGA DE DEUS 





 

Sudário de Turim





O Sudário de Turim: foto da face, à esquerda o positivo, à direita o negativo. Nota: O negativo teve o contraste realçado.
 
O Sudário de Turim ou Santo Sudário é uma peça de linho que mostra a imagem de um homem que aparentemente sofreu traumatismos físicos de maneira consistente com a crucificação.[1] O Sudário está guardado na Catedral de Turim, na Itália, desde o século XIV.[2] Pertenceu desde 1357 à casa de Saboia que em 1983 o doou ao Vaticano.[3] A peça é raramente exibida em público,[4] a última exposição foi no ano 2010 quando atraiu mais de 50 mil fiéis.[5]
O Sudário é um dos acheiropoieta (grego bizantino: "não feito pelas mãos")[6] e vários cristãos acreditam que seja o tecido que cobriu o corpo de Jesus Cristo após sua morte.[7] A imagem no manto é em realidade muito mais nítida na impressão branca e negra do negativo fotográfico que em sua coloração natural.[8] A imagem do negativo fotográfico do manto foi vista pela primeira vez na noite de 28 de maio de 1898 através da chapa inversa feita pelo fotógrafo amador Secondo Pia que recebeu a permissão para fotografá-lo durante a sua exibição na Catedral de Turim. [9]
A origem da peça conhecida como Santo Sudário tem sido objeto de grande polémica. Para descrever seu estudo geral, os pesquisadores cunharam o termo "sindonologia", do grego σινδών—sindon, a palavra usada no evangelho de Marcos para descrever o tipo de tecido comprado por José de Arimateia para usar como mortalha de Jesus[10] .

Características

A imagem completa
 
O sudário é uma peça rectangular de linho com cerca de 4,5 metros de comprimento e 1,1 de largura.[11] [12] O tecido apresenta a imagem de um homem de 1,83m de altura[10] que parece ter sido crucificado, com feridas consistentes com as que Jesus sofreu antes de sua crucificação no relato bíblico.[1]
A 28 de maio de 1898, o fotógrafo italiano Secondo Pia tirou a primeira fotografia ao sudário e constatou que o negativo da fotografia assemelhava-se a uma imagem positiva do homem, o que significava que a imagem do sudário era, em si, um negativo.[8]

História

Até o século XIII

Uma das primeiras representações do sudário de Edessa, do século IX
 
As primeiras referências a um possível sudário surgem na própria Bíblia. O Evangelho de Mateus (Mateus 27:59) relata que José de Arimateia envolveu o corpo de Jesus Cristo com "um pano de linho limpo". João (João 19:38-40) também descreve o evento, e relata que os apóstolos Pedro e João, ao visitar o túmulo de Jesus após a ressurreição, encontraram os lençóis dobrados (João 20:6-7). Embora depois desta descrição evangélica o sudário só tenha feito sua aparição definitiva no século XIV, para não mais ser perdido de vista, existem alguns relatos anteriores que contêm indicações consistentes sobre a existência de um tal tecido em tempos mais antigos.[13] [14] [15]
A primeira menção não-evangélica a ele data de 544, quando um pedaço de tecido mostrando uma face que se acreditou ser a de Jesus foi encontrado escondido sob uma ponte em Edessa. Suas primeiras descrições mencionam um pedaço de pano quadrado, mostrando apenas a face, mas João Damasceno, em sua obra anti-iconoclasta "Sobre as Imagens Sagradas", falando sobre a mesma relíquia, a descreve como uma faixa comprida de tecido, embora afirmasse que se tratava de uma imagem transferida para o pano quando Jesus ainda estava vivo, isto é, não seria uma mortalha, mas sim um tecido que esteve em contato com Cristo ainda vivo (veja Imagem de Edessa).[16]
Em 944, quando esta peça foi transferida para Constantinopla, Gregorius Referendarius, arquidiácono da Basílica de Santa Sofia pregou um sermão sobre o artefato, que foi dado como perdido até ser redescoberto em 1004 num manuscrito dos arquivos do Vaticano.[13] [14] .Neste sermão é feita uma descrição do sudário de Edessa como contendo não só a face, mas uma imagem de corpo inteiro, e cita a presença de manchas de sangue. Outra fonte é o Codex Vossianus Latinus, também no Vaticano, que se refere ao sudário de Edessa como sendo uma impressão de corpo inteiro [15]
Outra evidência é uma gravura incluída no chamado Manuscrito Húngaro de Preces,[17] datado de 1192, onde a figura mostra o corpo de Jesus sendo preparado para o sepultamento, numa posição consistente com a imagem impressa no sudário de Turim.

A gravura no "Manuscrito Húngaro de Preces"
 
Em 1203, o cruzado Roberto de Clari afirmou ter visto o sudário em Constantinopla nos seguintes termos: "Lá estava o sudário em que nosso Senhor foi envolto, e que a cada quinta-feira é exposto de modo que todos possam ver a imagem de nosso Senhor nele".[18] Seguindo-se ao saque de Constantinopla, em 1204, Teodoro Ângelo, sobrinho de um dos três imperadores bizantinos, escreveu uma carta de protesto ao papa Inocêncio III, onde menciona o roubo de riquezas e relíquias sagradas da capital pelos cruzados, e dizendo que as jóias ficaram com os venezianos e relíquias haviam sido divididas entre os "francos", citando explicitamente o sudário, que segundo ele havia sido levado para Atenas nesta época.[19] [20]
Dali, a partir de testemunhos de época de Godofredo de Villehardouin e do mesmo Roberto de Clari, o sudário teria sido tomado por Otão de la Roche, que se tornou Duque de Atenas. Segundo a pesquisadora italiana Barbara Frale, os templários teriam mantido o sudário por um século em sua posse e o levado à França.[21] Ainda há controvérsia se o sudário de Edessa (chamado Mandylion) seria o mesmo de Turim, em vista de referências que indicariam sua presença em Constantinopla até 1362, cinco anos após sua aparição no Ocidente.[22]

Século XIV

O Sudário reapareceu na França por volta de 1349 em poder de Godofredo de Charney, senhor de Lirey, próximo de Troyes[23] .
Henrique de Poitiers, arcebispo de Troyes, apoiado mais tarde pelo rei Carlos VI de França, declarou o sudário como uma impostura e proibiu a sua veneração. A peça conseguiu, no entanto, recolher um número considerável de admiradores que lutaram para a manter em exibição nas igrejas.
Em 1389, o bispo Pierre d’Arcis (sucessor de Henrique) denunciou a suposta relíquia como uma fraude fabricada por um pintor talentoso, numa carta a Clemente VII (antipapa em Avinhão). D’Arcis menciona que até então tem sido bem sucedido em esconder o pano e revela que a verdade lhe fora confessada pelo próprio artista, que não é identificado. A carta descreve ainda o sudário com grande precisão.
Aparentemente, os conselhos do bispo de Troyes não foram ouvidos visto que Clemente VII declarou a relíquia sagrada e ofereceu indulgências a quem peregrinasse para ver o sudário.[24]

Século XV

Em 1415, devido às pilhagens da Guerra dos Cem Anos, Margarita de Charny, neta de Godofredo e casada com Humberto de Villersexel, conde de La Roche, retirou o sudário da Colegiata de Lirey e o colocou no castelo de seu marido, no povoado de Saint Hippolyte-sur-le Doubs[23] .

Pintura de Giulio Clovio mostrando o sudário e a forma como Jesus foi envolvido
 
Quando Margarita enviuvou de Humberto, passou a expor o sudário no castelo, em troca de donativos, devido à sua precária situação financeira[23] . Possivelmente devido a esta situação, em 22 de março de 1453 o sudário foi transferido a Luís, duque de Saboia, mediante contrato assinado em Genebra[23] . Pelo mesmo contrato, o duque de Saboia cede a Margarita o castelo de Varambon e as rendas do senhorio de Mirabel, próximo a Lyon[23] . O contrato declara que a cessão do castelo é "pelos numerosos e importantes serviços que a condessa de la Roche prestou ao duque de Saboia" [23] . Assim o sudário passou a ser propriedade da Casa de Saboia, sob queixas dos cônegos de Lirey que se consideram donos do lençol[23] .
Em 1502, o sudário foi depositado na Capela Santa do castelo dos duques em Chambéry[23] .

Século XVI aos nossos dias

Na noite de 3 para 4 de dezembro de 1532, o sudário foi danificado por um incêndio que afectou a sua capela e pela água das tentativas de o controlar[23] . O sudário estava guardado numa urna de prata — presenteada por Margarida da Áustria em 1509 — e o fogo provocou o derretimento parcial da prata[23] . Os pingos de prata derretida deixaram perfurações simétricas no sudário, uma vez que o lençol estava dobrado quarenta e oito vezes[23] . Também as bordas dessas dobras, em contato com o metal incandescente, ficaram chamuscadas[23] . A água impregnou o sudário, produzindo manchas em forma de losangos devido às dobraduras, as quais aparecem simetricamente em toda a peça quando é estendida[23] .
Em 1562, a capital do Ducado de Saboia foi transferida de Chambéry para Turim e, em 1578 a peça foi levada para a catedral de Turim, onde está até hoje na Cappella della Sacra Sindone do Palazzo Reale di Torino.[25]
A casa de Saboia foi a proprietária do sudário até 18 de março de 1983, quando o ex-rei da Itália, Humberto II, ao morrer o legou à Santa Sé[23] . Em 2002, o sudário foi submetido a obras de restauro.

O restauro de 2002

No inverno de 2002, o sudário foi submetido a uma grande restauração que chocou a comunidade de pesquisadores e foi condenada por muitos.[26] Autorizada pelo arcebispo de Turim como uma medida benéfica de conservação, a operação foi baseada na reclamação que o material em torno dos furos de queimadura (dos incêndios pelo qual o sudário passou em pelo menos duas ocasiões) estavam causando contínua oxidação que iriam com o tempo ameaçar a imagem. A operação foi rotulada como cirurgia desnecessária que destruiu dados científicos, removeu os reparos de 1534 que eram parte da herança do sudário, e destruiu oportunidades de pesquisa sofisticada.[26]
Em 2003, a principal restauradora, Mechthild Flury-Lemberg, especialista suíça em tecidos, descreveu a operação e as razões pelas quais ela a considerou necessária.[27]
Em 2005, William Meacham, arqueólogo que estuda o sudário desde 1981, criticou ferozmente a restauração, rejeitou as razões apresentadas por Flury-Lemberg e classificou a operação como "um desastre para o estudo científico da relíquia".[28]

Análise científica

As primeiras análises de laboratório ao sudário foram realizadas em 1973 por uma equipe internacional de cientistas.[29] Os resultados demonstraram, segundo Walter McCrone, que a imagem do sudário é composta por numerosas gotículas de tinta fabricada a partir de ocre.[29]
Em 1978, a equipe americana do STURP (Shroud of Turin Research Project) teve acesso ao sudário durante 120 horas.[30] A equipe era composta por 40 cientistas, dos quais apenas um não era religioso, Walter C. McCrone, que retirou-se logo no início das investigações.[31] Foram realizados muitos experimentos que envolveram diversas áreas da ciência, como fotografias com diferentes tipos de filme, radiografia de raios X, raio X com fluorescência, espectroscopia, infravermelho e retirada de amostras com fita, mas não foi autorizado a fazer o teste por datação carbono-14.[carece de fontes]

Datação por radiocarbono

Em 1988 o sudário foi datado por radiocarbono por três diferentes laboratórios em Zurique, Oxford e na Universidade do Arizona.[32] Os resultados estavam em concordância de que o tecido é da época entre 1260 e 1390.[32]
A datação radiométrica por carbono-14 é efetiva até datas de 30 mil a 40 mil anos BP (Before Present= Antes do Presente). Após esse período, a radiação emitida pelo carbono-14 terá sido reduzida a praticamente zero. Por outro lado, em um objeto com muito recente, por exemplo, com cem anos de idade, a quantidade de radiação emitida não terá diminuído o suficiente para que seja detectada alguma diferença.[33] Existem, no entanto, várias fontes de erro que podem induzir resultados duvidosos.[34] Muito da polémica sobre a autenticidade do sudário foca as possíveis fontes de erros da datação.[34]
O ensaio do carbono reativo feito em 1988 por três equipes de cientistas independentes indicou como resultados que o manto foi feito entre 1260 e 1390, portanto durante a Idade Média, aproximadamente treze séculos posterior à vida de Jesus.[32] Alegações de incertezas e erros nos exames surgiram imediatamente após a publicação dos resultados e foram em grande parte respondidas por Harry E. Gove.[35] [36]
A controvérsia continuou, porque o microbiólogo Dr. Garza Valdez descobriu no Sudário bactérias que deturpariam a datação pelo carbono. Posteriormente, em documentário do Discovery Channel, o Dr. Harry Gove - que foi o descobridor da tecnologia de datação de carbono - 14 reconheceu que o trabalho no Sudário foi feito sem conhecimento das descobertas de Valdez. Ainda afirmou que mesmo tentando limpar as bactérias, com a tecnologia atual, não seria possível separar as bactérias do tecido e, portanto, por enquanto a datação por carbono no Sudário não seria válida. Harry Gove afirmou então que quando houvesse essa tecnologia faria a petição à Santa Sé para tentar datar o Sudário novamente[37] .
A afirmação de que a amostra analisada pelas equipes de cientistas teria sido retirada de uma zona do manto que não fazia parte do tecido original, foi desmentida por Joe Nickell[38] . O Sudário foi também danificado devido a um incêndio no final da Idade Média, o que poderia ter acrescentado carbono reativo à composição do tecido invalidando a aplicação da análise por carbono reativo.[38] . Este laudo por sua vez foi questionado por céticos como Joe Nickell, que acredita que as conclusões do seu autor, Raymond Rogers,[39] resultam de uma "busca de evidências que possam garantir uma conclusão previamente desejada". Philip Ball, editor da revista "Nature", contestou esta afirmação dizendo que a ideia de que os estudos de Rogers tenham sido direcionados para a obtenção de uma conclusão pré-estabelecida é injusta e Rogers "apresenta uma história de trabalho respeitável".[40] Todavia, a pesquisa de 2008 na unidade de aceleração de carbono reativo da Universidade de Oxford propôs uma revisão da data a que se atribui à criação do manto de 1390 para 1260,[41] o que levou seu diretor Gordan Ramsey a convocar a comunidade científica a novas comprovações sobre autenticidade do Sudário. "Com as medidas do ensaio de carbono reativo e com todas as outras evidências que se possui a respeito do Sudário, ainda existem conflitos de interpretação de diferentes fontes" disse Gordan ao noticiário da BBC em 2008, após a publicação dos novos resultados.[carece de fontes] Apesar de manter uma mente aberta quanto ao tema, Ramsey enfatizou que ficaria surpreso se sobre os ensaios de 1988 fosse comprovado um erro de dez séculos.[carece de fontes]
A datação do sudário foi contestada pelo argumento de contaminação bacteriana[38] . Em resposta, os cientistas que realizaram as análises de carbono-14 afirmam que o tecido foi limpo antes do teste Cabon o 14, o que exclui a possibilidade dessa contaminação[38] . O intervalo de resultados (1290-1390) é explicado pela influência do incêndio de Chambéry de 1532 e subsequentes tentativas (desastradas) de restauro. Sendo assim, e devido aos acidentes, a datação com carbono-14 não seria exata. [42] Porém segundo o Dr. Walter McCrone, um peso de carbono do século XX igual a duas vezes o peso total do sudário seria necessário para fazer um objeto do século I ser datado como do século XIV, e portanto haveria suficiente certeza que o sudário seria uma criação medieval.[43]
No entanto, Joseph G. Marino e M. Sue Benford propuseram que a área de tecido usada como amostra pode não pertencer ao tecido original (nenhuma das amostras continha uma área "manchada"), uma vez que quase 60% do tecido do Sudário é resultado de progressivas reparações feitas ao longo dos séculos.[44] O académico Raymond Rogers argumentou, num artigo publicado em 2005,[45] que a análise química por ele realizada confirmava esta hipótese, uma vez que as amostras usadas na datação-por-carbono mostram traços evidentes de corantes, provavelmente usados pelos tecelões medievais para conseguir a cor do tecido original ao realizarem reparações e reforçarem o sudário para maior protecção. outros autores apresentaram ainda evidências adicionais neste sentido.[44] [46] [47] [48]
Em dezembro de 2011 a agência italiana para as novas tecnologias e desenvolvimento sustentável (ENEA) executou estudos sobre o manto. Por cinco anos, essa agência de pesquisa centralizou seus esforços sobre a formação da imagem que se vê no sudário, tentando a sua reprodução. A conclusão foi que: “A imagem dupla (frente e verso) de um homem flagelado e crucificado, pouco visível no tecido de linho do Sudário de Turim, tem muitas características físicas e químicas e é impossível de ser reproduzida em laboratório”.[49] Os cientistas tiveram extrema cautela ao publicar suas conclusões, limitando-se a “propor considerações que não extravasam o campo científico”.[50]
A datação correta do sudário ainda gera discussões no mundo científico, uma pesquisa publicada na revista especializada "Termochimica Acta", sugere que o manto possa ter entre 1300 e 3000 anos o que torna possível ele ter sido usado por Jesus. A pesquisa afirma que a datação anterior feita em 1988 utilizou uma parte do manto que havia sido restaurada por freiras, durante a idade média, para recompor partes danificadas do manto durante um incêndio. Segundo a pesquisa, na amostra utilizada em 1988 foi encontrada vanilina, composto produzido pela decomposição da lignina. Este composto desaparece com o tempo não podendo ser encontrado em pedaços de linho muito antigos. Como este composto não foi encontrado no restante do sudário a pesquisa concluiu que o sudário é muito mais antigo do que foi deduzido anteriormente.[51]

Propriedades químicas

Foram também efectuados testes químicos ao sudário por especialistas das Universidades de Milão e da Califórnia. Os métodos utilizados foram a análise espectral e fotografia ultravioleta. Os resultados mostram que a porção amostrada para datação radiométrica é distinta do resto do tecido, nomeadamente pela presença de pigmentos e fixantes. Este resultado sugere que esta porção do tecido seja na realidade um remendo posterior. Outra diferença consiste na presença de vanilina, um produto da decomposição térmica da linhina (um composto das fibras naturais). A vanilina é um composto habitual na análise a tecidos da Idade Média, mas que se encontra ausente em amostras mais antigas, uma vez que sofre decaimento. Segundo Raymond Rogers: "O fato de que a vanilina não pode ser detectada na lignina das fibras do manto, pergaminhos do mar Morto e outros pedaços de linho muito antigos indica que o manto é muito velho".[52]

Possíveis meios de formação da imagem

A imagem no tecido tem muitas características peculiares e profundamente estudadas.[53] Por exemplo, ela é inteiramente superficial, não penetrando nas fibras do tecido sob a superfície, de forma que as fibras do algodão não estão coloridas; a imagem é composta de fibras descoloridas dispostas lado a lado com fibras não descoloridas de forma que estrias aparecem. Segundo Walter McCrone, toda a imagem é composta de pigmentos (óxido de ferro e sulfeto de mercúrio).[54] Porém investigação química relatada no Canadian Society of Forensi Jornal afirma que pequenas quantidades de óxido de ferro estão igualmente distribuídas na área da imagem e na área sem imagem e que as manchas de sangue são realmente de sangue.[55]

A hipótese da reação de Maillard

Uma hipótese para a formação natural da imagem é a reação de Maillard na qual os gases libertados por um corpo em decomposição reagem com a fina camada (180-600 nanometros) de carbo-hidratos a celulose das fibras do tecido. Esta reação e a alteração química correspondente poderia explicar a variação de cor que define a imagem do sudário. Outra conclusão relevante é a de que a reação de Maillard afecta apenas a camada de carbo-hidratos, o que pode ser uma resposta para a superficialidade da imagem. Nas primeiras fases de decomposição, um cadáver exala os gases que desenvolvem a reacção de Maillard com os carbo-hidratos do tecido. No entanto, à medida que a decomposição prossegue, o corpo tende a libertar outro tipo de produtos líquidos que mancham o tecido, eliminando a possível coloração devida à reacção de Maillard. Se a imagem do sudário é de facto a impressão post-mortem de Jesus Cristo, então o corpo teria que ter sido retirado da sua mortalha antes do começo da decomposição. Segundo a Bíblia, foi mesmo isto que aconteceu durante a ressurreição.[56]

Análise da perspectiva ótica

O sudário em duas dimensões apresenta uma imagem tridimensional projetada sobre uma superfície plana (bidimensional), como uma fotografia ou pintura, numa projeção ortogonal [57] .
Se um sudário funerário repousasse de forma aproximadamente cilíndrica sobre a superfície tridemensional da face, o resultado seria uma distorção lateral não-natural, um forte alargamento para os lados, como numa projeção de Mercator, em vez da fortemente alongada imagem vertical vista no sudário. Mario Latendresse questiona esta argumento.[58] Segundo ele, distorções podem ser pequenas se o sudário não estivesse firmemente apertado contra o corpo. Não é explicado, porém, como os detalhes da superfície podem aparecer no sudário de ele não estivesse firmemente contra o corpo. Mas ele mostra que não devia estar firmemente contra o corpo uma vez que pequenas distorções ocorreram. Portanto, o mecanismo de formação de imagens deve assumir que o tecido não estava firmemente apertado. Ainda, o tecido não permaneceria completamente plano. Um tecido natural repousando sobre um corpo não criaria maiores distorções.[58]
O engenheiro electrónico Hernán Toro também questiona se uma imagem por contato com o tecido mostraria uma um retrato de aparência fotográfica e não uma imagem distorcida, como uma projeção de uma superfície irregular em uma superfície plana[59] . Ou seja, deveria haver uma distorção na imagem, o que não ocorre [38] .

Perspectiva religiosa

Os defensores do sudário como relíquia têm voltado a atenção aos métodos naturais que possam ter produzido a imagem, a partir do corpo crucificado de Jesus Cristo. Os crentes mais ortodoxos argumentam que tenha surgido por milagre e como tal, não carece de mais explicação. No entanto, no seio da comunidade católica, há quem procure investigar o problema de forma científica.

Esta passagem carece de fontes
A presença de sangue no sudário é questão polêmica ainda. Pelo que se sabe das prácticas funerárias do século I, os judeus limpavam e perfumavam os seus mortos antes de os sepultarem.[25] Sendo Jesus Cristo uma figura amada pelos seus, seria pouco provável que o tenham amortalhado sem os devidos procedimentos de limpeza que eliminariam a presença de sangue no corpo, como supõe-se pelo evangelho de João (19:40) (neste ponto é importante lembrar que os cadáveres não sangram, visto que já não há batimento cardíaco, pelo que as manchas de sangue não podem ser posteriores à limpeza). Uma resposta a essa questão, entretanto, poderia ser encontrada nos evangelhos de Lucas (23:50-56 e 24:1) e Marcos (15:41-47 e 16:1): o corpo teria sido sepultado às pressas, devido ao descanso sabático no dia da preparação da Páscoa, o qual começaria na noite posterior à morte de Jesus. Por este fato, as mulheres teriam deixado para perfumar e embalsamar o corpo no amanhecer do primeiro dia da semana, após o sábado - no que teriam encontrado o túmulo vazio, devido a ressurreição. As narrativas de Marcos e Lucas, portanto, justificariam o fato de o corpo do sudário estar sujo de sangue, enquanto que a de João deixaria dúvidas. [nota 1]

Posição do Vaticano

A Igreja Católica não emitiu opinião acerca da autenticidade desta alegada relíquia. A posição oficial a esta questão é a de que a resposta deve ser uma decisão pessoal do fiel. O papa João Paulo II confessou-se pessoalmente comovido e emocionado com a imagem do sudário, mas afirmou que uma vez que não se trata de uma questão de fé, a Igreja não se pode pronunciar, ao mesmo tempo que convidou as comunidades científicas a continuar a investigação.[60] A Catholic Encyclopedia, editada pela Igreja Católica, no seu artigo sobre o Sudário de Turim afirma que o sudário está além da capacidade de falsificação de qualquer falsário medieval.[61]

Controvérsia




Em campos opostos encontram-se os crentes que explicam o tecido como a mortalha de Jesus e os céticos que o consideram uma falsificação do século XIV[38] . Ambos os campos utilizaram diversos tipos de argumentação científica para provar as suas teorias. Segue-se um resumo dos argumentos a favor e contra.[38] Cientistas, pessoas crentes, historiadores e escritores divergem com respeito ao local, à data e à maneira como esta imagem foi criada. De um ponto de vista religioso, em 1958 o papa Pio II aprovou a associação da imagem e a celebração anual em sua homenagem na "terça-feira do Sudário" com a devoção à face sagrada de Jesus dentro da fé Católica Apostólica Romana.[62] Alguns acreditam que a imagem gravada nas fibras do Sudário se produziu no momento do sepultamento do corpo de Jesus Cristo ou pouco antes do que se acredita como a sua ressurreição. Céticos, entretanto alegam que o sudário consiste em uma falsificação medieval. A acusação de falsificação é tão antiga como o próprio sudário e foi lançada até pelos arcebispos de Troyes contemporâneos da sua descoberta. Um deles, Pierre d’Arcis, escreveu mesmo ao papa detalhando os pormenores da impostura que considerava ser uma forma ardilosa de roubar dinheiro de peregrinos piedosos.[24] . Outros atribuem a formação da imagem às reações químicas e outros processos naturais. "[63]
A equipe americana do STURP (Shoud of Turin Research Project), após três anos e cerca de 100 000 horas de pesquisa, apontou as seguintes conclusões: [30]
  1. Havia sangue humano no sudário;
  2. As gotículas de tinta ocre seriam resultado de contaminação;
  3. A habilidade e equipamentos necessários para gerar uma falsificação daquela natureza seriam incompatíveis com o período da Idade Média, época em que o sudário apareceu e foi guardado;
  4. Como cientistas, também não podiam afirmar que a mortalha era verdadeira;
  5. As marcas do Sudário são um duplo negativo fotográfico do corpo inteiro de um homem. Existe a imagem de frente e de dorso;
  6. A figura do Sudário, ao contrário de outras figuras bidimensionais testadas até então, contém dados tridimensionais;
  7. Não existe ainda explicação científica de como as imagens do Sudário foram feitas;
  8. O Sudário apresenta marcas compatíveis com a descrição da crucificação nos Evangelhos.
Na época, o STURP não foi autorizado a fazer o teste por datação carbono-14, o que impossibilitou a determinação da idade da peça. Dez anos depois, em 1988, o Vaticano autorizou os primeiros testes de datação radiométrica do sudário, segundo o método do carbono-14. A três análise independentes revelaram idades entre 1260-1390.[32] [38]
O foco principal dos ataques científicos dos defensores do sudário tem sido a datação radiométrica que aponta para o século XIV e possíveis fontes de erro. Um acontecimento da história do sudário (o incêndio de 1532) pode ter introduzido poeiras e outros materiais contemporâneos nas fibras, que não teriam sido removidos pelas equipas de datação[38] .
Considerando esta hipótese, os resultados dos testes de carbono-14 seriam uma mistura entre a idade real (segundo os defensores), por volta do século I, e as poeiras do século XVI. Outra fonte de erro possível é a presença de resíduos bacterianos que, sendo eles próprios compostos carbónicos, influenciam a quantidade do isótopo carbono-14 e por consequência, a datação. O campo dos céticos defensores da qualidade da datação oferece no entanto uma resposta à ideia de contaminação bacteriana.
Esta passagem carece de fontes
Outros argumentos para a autenticidade do sudário:
  1. A análise microscópica das fibras mostra que a imagem está contida apenas na camada de carbo-hidratos. Os defensores da autenticidade argumentam que não existe técnica de pintura, disponível nos séculos XIII e XIV, que permita uma precisão de aplicação de tintas à escala no nanômetro.[64]
  1. Uma análise do espectro de freqüências da figura digitalizada do Sudário não mostra a existência de picos que demonstrariam a ação de um pintor.[carece de fontes]
  2. De acordo com Mechthild Flury-Lemberg, especialista suíça em restauro de tecidos, a trama do sudário é similar à encontrada em tecidos datados de 40 a.C. a 73 d.C. recuperados na fortaleza de Masada, que caiu durante a segunda revolta dos judeus contra o Império Romano no século I.[65]
  3. Os ferimentos nos pulsos, atribuídos à crucificação, são consistentes com o que se sabe sobre este procedimento de execução. No entanto, na iconografia religiosa da Idade Média, Cristo aparece pregado pelas palmas das mãos, o que parecia ser a ideia aceite na altura. Os defensores argumentam que se o sudário fosse uma falsificação medieval, seria esta a disposição das feridas, uma vez que os detalhes correctos da crucificação eram desconhecidos então.[66]
Outros testemunhos contemporâneos[quando?] descrevem as manchas de sangue da imagem com cores tão vivas que, segundo os relatos, pareciam frescas. Hoje em dia (passados cerca de 550 anos desses relatos), estas nódoas de sangue são mortiças e passam despercebidas na primeira análise. Se fossem originárias do século I, então não seriam mais visíveis na Idade Média, tanto que hoje já não se vêm. Contudo há que referir que era costume fazerem-se cópias (decalques) do sudário para catedrais da Europa onde era venerada a "imagem real de Nosso Senhor".[necessário esclarecer] Por outro lado o sudário foi várias vezes trocado por cópias (decalques) para preservar o original (pois aos fieis o que impressionava era poder conhecer a figura de Cristo e não tanto admirar a antiguidade da relíquia). Contudo estes dados vêm levantar dúvidas quanto à originalidade do sangue, que pode ser original do sudário ou pode ter sido colocado depois.

Esta passagem carece de fontes
Em 2012, o historiador de arte Thomas de Wesselow apresentou no livro "O sinal - O Santo Sudário e o segredo da ressurreição" (The Sign: The Shroud of Turin and the Secret of the Resurrection) novas pistas sobre a autenticidade do Santo Sudário. Sua teoria se baseia na análise de passagens bíblicas e debates sobre os resultados obtidos por cientistas, entre eles o teste de Carbono 14 - que o teólogo Joe Marino e a estudiosa Sue Benford alegaram em 2000 ter sido feito em uma área remendada do lençol na Idade Média, e não no tecido original. Em sua interpretação, o Sudário foi a prova fundamental para os apóstolos de Cristo da sua ressureição - essa teria sido a "aparição" feita por Jesus ao ressuscitar - e por isso se configura como peça principal do surgimento do cristianismo e de seu crescimento de fiéis no século I[67] .
Em 2014, o pesquisador brasileiro Jack Brandão em seu livro "Apontamentos imagético-interdisciplinares: as artes iconológica, pictográfica, fotográfica e literária" contesta o historiador Wesselow ao demonstrar que o mesmo estava mais preocupado em criar uma "teologia própria", visando tão-só a "desconstruir o conceito da ressurreição cristã" - como se isso "coubesse a um pesquisador sério[68] " já que buscava em seu livro "contrapor duas realidades imiscuíveis: fé e ciência[69] " - do que analisar o tecido como um start para a construção imagética de Jesus Cristo. Ainda segundo Brandão, Wesselow, enquanto "historiador da arte" emprega, muitas vezes, de "beligerância não frente ai objeto de seu estudo, no caso o próprio Sudário de Turim, mas frente a seu desvirtuamento, a sua mudança de foc0: afinal um historiador da arte, teria de trabalhar com seu objeto de estudo, não interferir em outro que não e de sua competência.[70] "
No mesmo ano, o também brasileiro professor Átila Soares da Costa Filho publica na revista "Leituras da História" nº76 (edição de outubro) um estudo onde, além de contestar o cerne da obra de Wesselow, reúne algumas evidências que podem apontar para o lençol como um trabalho de Leonardo da Vinci. Assim, o Sudário não seria mais um autorretrato - como defendem Picknett-Prince -, mas uma recriação da iconografia de Cristo tendo como modelo o rosto de Cesare Borgia, filho do Papa Alexandre VI.[71]

Desenvolvimentos recentes

Em 2009, Luigi Garlaschelli, professor de química da Universidade de Pávia afirmou ao jornal La Repubblica ter conseguido produzir em laboratório uma réplica do sudário com a utilização de técnicas disponíveis na Idade Média. Esta seria uma evidência adicional à datação da radiação radiométrica, indicando que já existiam na época apontada pela datação mecanismos para criação do sudário, e portanto nenhuma explicação paranormal se exigiria.[72] [73] No entanto, de acordo com Giulio Fanti, reconhecido sindonologista e professor de medições térmicas e mecânicas na Universidade de Pádua, "a imagem em discussão [obtida por Garlaschelli] não corresponde às propriedades fundamentais da imagem do Sudário, em particular ao nível das linhas e fibras, mas também a um nível macroscópico". Fanti afirma ainda que graças à experiência de Garlaschelli, foi possível demonstrar como e porquê, graças a "detalhes" fundamentais, a imagem do Sudário de Turim não é reproduzível nem na actualidade, e continua sendo um objecto inexplicado.[74]

Achado arqueológico

Em dezembro de 2009, arqueólogos da Universidade Hebraica reportaram no periódico PloS ONE Journal ter encontrado fragmentos de um sudário numa tumba da primeira metade do século I, localizada no vale inferior do Hinnon, ao lado do túmulo de Anás, sogro de Caifás no cemitério de Haceldama, o "Campo de Sangue" que teria sido comprado com as 30 moedas recebidas por Judas. Sua localização sugere que pertencia a uma pessoa de família nobre ou sacerdotal. Segundo Orit Shamir, especialista em tecidos antigos, o material utilizado para envolver o corpo é de boa qualidade, condizente com uma pessoa de posses, embora muito menos elaborado que o tecido do Santo Sudário de Turim.[75]
A idéia de que o corpo de Jesus tenha sido envolto em um manto, de acordo com o costume judaico, não estava apoiada por qualquer evidência arqueológica. No entanto, no "túmulo do Sudário", foram encontrados indivíduos cobertos no interior da câmara, confirmando a prática, bem como o caráter definitivo da preparação mortuária. A análise de traços de material orgânico presentes em todas as amostras de tecido confirma que estes cobriam todo o corpo. Vestígios de cabelos também confirmam a prática de cobrir a cabeça do morto.[75]
O Shimon Gibson, um dos autores do artigo "Molecular Exploration of the First-Century Tomb of the Shroud in Akeldama, Jerusalem", disse à National Geographic que haviam diferenças na confecção do sudário encontrado pela sua equipa e o Sudário de Turim, o que foi divulgado pelos mídia como sendo prova da falsidade do Sudário. Todavia, César Barta, físico do Centro Espanhol de Sindologia, afirma que "estes dados, ao contrário, suportam a autenticidade da relíquia de Turim", acrescentando, ainda, que as diferenças na trama e textura dos tecidos quando comparados "não são suficientes para que se questione sua autenticidade", até porque "o tecido que constitui o Sudário de Turim é um exemplar único, não tendo sido encontrados tecidos similares nem da época de Cristo nem da Idade Média".[75]

Notas

«E eis que um homem por nome José, senador, homem de bem e justo, Que não tinha consentido no conselho e nos atos dos outros, de Arimatéia, cidade dos judeus, e que também esperava o reino de Deus; Esse, chegando a Pilatos, pediu o corpo de Jesus. E, havendo-o tirado, envolveu-o num lençol, e pô-lo num sepulcro escavado numa penha, onde ninguém ainda havia sido posto. E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado. E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galiléia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e ungüentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento.» (Lucas 23:50-56)
«E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas. E acharam a pedra revolvida do sepulcro.» (Lucas 24:1-2)
«E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, Chegou José de Arimatéia, senador honrado, que também esperava o reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido. E, tendo-se certificado pelo centurião, deu o corpo a José; O qual comprara um lençol fino, e, tirando-o da cruz, o envolveu nele, e o depositou num sepulcro lavrado numa rocha; e revolveu uma pedra para a porta do sepulcro. E Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde o punham.» (Marcos 15:41-47)
«E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo.» (Marcos 16:1)
«Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com as especiarias, como os judeus costumam fazer, na preparação para o sepulcro.» (João 19:40)
Portanto, dos evangelhos de Lucas e Marcos, deduz-se que não houve tempo para a preparação do cadáver conforme o ritual judaico, o que explica as marcas de sangue. Já o Evangelho de João não é claro ao colocar a expressão "como os judeus costumam fazer".

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

OS MISTÉRIOS NA ARTE

Grandes Mistérios da Humanidade
OS MISTÉRIOS NA ARTE
Grandes mistérios da humanidade é a nova etiqueta do Blog Rvelações que vai reunir várias publicações que irão revelar os grandes mistérios existentes na pintura, nos livros, em grandes obras de arte ou em qualquer outra forma presentes no dia-a-dia. Prepare-se para tomar contacto com um novo mundo . um novo conhecimento que se lhe revelará e o fará questionar muitas coisas .
Neste primeiro Blog revelo-lhe As Pinturas Proféticas do Prado. O investigador e escritor Javier Serra, a propósito do seu último livro, vem-nos explicar uma série de códigos escondidos que se encontram em diversas pinturas e obras de arte existentes no Museu do Prado em Madrid, Espanha. Obras como o Jardim das Delícias do grande mestre Bosch, contém um código secreto que as tornam em portas de entrada para uma outra dimensão.


AS PINTURAS PROFÉTICAS DO PRADO :

Esta aventura começa em 1990, quando Javier Sierra tropeça nas galerias do Museu do Prado, com um personagem misterioso que se oferece para explicar as claves escondidas em algumas das obras-primas. Visões místicas, anúncios proféticos, conspirações, heresias e até mesmo mensagens que parecem chegadas do "outro lado" inspiraram mestres como Rafael, Ticiano, el Bosco, Juan de Juanes, Botticelli, Brueghel ou Greco. E de acordo com esse inesperado mestre, o que todos eles deixaram escrito em suas pinturas é tão avassalador como revolucionário.

Texto: Português
Áudio: Castelhano
Fonte: Expediente Punto Cero - Wikipédia









O Jardim das Delícias Terrenas

O Jardim das Delícias Terrenas
Autor Hieronymus Bosch
Data 1504
Técnica Óleo sobre madeira
Dimensões 220  × 389 
Localização Museu do Prado, Madrid

O Jardim das Delícias Terrenas é um tríptico de Hieronymus Bosch, que descreve a história do Mundo a partir da criação, apresentando o paraíso terrestre e o Inferno nas asas laterais. Ao centro aparece um Bosch que celebra os prazeres da carne, com participantes desinibidos, sem sentimento de culpa. A obra expõe ainda símbolos e atividades sexuais com vividez. Especula-se sobre seus financiadores, que poderiam ser adeptos do amor livre, já que parece improvável que alguma igreja tradicional a tenha encomendado.
Ligada à "utopia" por um lado, mas representando o lugar da vida humana por outro, Bosch revela uma actualidade do seu tempo, dado que essa vida está entre o paraíso e o inferno como se conta no Génesis. O tríptico, quando fechado, tem uma citação transcrita desse livro "Ele mesmo ordenou e tudo foi criado". Entre o bem e o mal está o pecado, preposição cristã. No jardim, painel central, representações da luxúria, mensagem de fragilidade nas envolvências do vidro e das flores, reflectem um carácter efémero da vida, passagem etérea do gozo, do prazer.
Enquanto "utopia", porque transcreve de modo imaginário na imagem um "real", que mais se aproxima do surreal, e representa, mesmo que toda a sociedade e a cultura Ocidental esteja marcada por essa estrutura, uma história “utópica” do seu tempo. Entre um “bem” e um “mal” está a vida e o pecado, de certo foi aplicado, mas no início seria apenas uma projecção.

História do tríptico

Como o restante das obras de Bosch, carece de datação unânime entre os especialistas, sendo esta uma das de mais enfrentadas posições, pois enquanto uns a consideram juvenil, outros dizem que é obra de maduração. Baldass e outros a situam na época juvenil de Bosch (1485).[1] Cinotti a situa por volta de 1503. Outras fontes a situam por volta de 1510.[2] Tolnay e Larsen situam-na afinal da atividade de Bosch (1514–1515). As análises dendrocronológicos datam-na depois de 1466. O catálogo da exposição sobre o artista celebrada em Roterdã em 2001 sinala a data entre 1480 e 1490.[1]
A partir de Gibson e até a atualidade (Hans Belting, 2002) conjeturou-se que fora realizada para Henrique III de Nassau.[1] Os primeiros possuidores da obra foram, pois, os membros da casa de Nassau, em cujo palácio de Bruxelas pôde ver o quadro o primeiro biógrafo de Bosch, Antônio de Beatis, personagem que viajava no séquito do cardeal de Aragão, em 1517. Sua descrição não deixa lugar a dúvidas de que se encontra frente ao famoso trítico: «Depois há algumas tábuas com diversas bizarrias, onde se imitam mares, céus, florestas e campos e muitas outras coisas, uns que saem de uma concha marinha, outros que defecam grous, homens e mulheres, brancos e pretos em atos e maneiras diferentes, pássaros, animais de todas as classes e realizados com muito naturalismo, coisas tão prazenteiras e fantásticas que em jeito algum se poderiam descrever àqueles que não as tiverem visto».
Foi herdado pelo seu filho René de Châlon e depois pelo sobrinho de Henrique, Guilherme de Orange, líder da rebelião holandesa contra a coroa dos Habsburgo. Foi confiscado pelo duque de Alba, incluindo-se no inventário redigido com tal motivo a 20 de Janeiro de 1568. O duque deixou os quadros a D. Fernando, seu filho natural e prior da ordem de São João.[1]
Foi comprada por Filipe II na leilão dos bens de Dom Fernando, e enviada para o mosteiro do Escorial em 8 de Julho de 1593.[1] Colocou-se no dormitório do rei, onde esteve até sua morte. É a pintura mais famosa da coleção de nove de Hieronymus Bosch que Filipe II reuniu em El Escorial.[3]
A princípio ao quadro denominou-se Uma pintura sobre a variedade do mundo. Logo, o "Quadro das fresas", denominação que se deve ao monge do Escorial José de Sigüenza, o primeiro crítico da obra. Poleró, que propõe em 1912 uma catalogação das obras do Museu do Prado, denomina o trítico Dos deleites carnais. De aí sai a sua denominação atual de "Jardim das delícias" ou "Das delícias terrenas". Foi transladado ao Museu do Prado em 1936 para a sua proteção devido à Guerra civil espanhola. Depois da guerra, por desejo de Franco entrou a fazer parte das coleções do Prado.[1]

Análise do tríptico

Trítico fechado

O trítico fechado: A Criação do mundo, óleo sobre tábua, 220 x 195 cm.
 
O quadro fechado na sua parte exterior alude ao terceiro dia da criação do mundo. Representa um globo terráqueo, com a Terra dentro de uma esfera transparente, símbolo, segundo Tolnay, da fragilidade do universo. Há apenas formas vegetais e minerais, não há animais nem pessoas. Está pintado em tons grises, branco e preto, o que se corresponde a um mundo sem o Sol nem a Lua embora também seja uma forma de conseguir um dramático contraste com o colorido interior, entre um mundo antes do homem e outro povoado por infinidade de seres (Belting.[1]
Tradicionalmente, a imagem que amostra o trítico fechado interpretou-se como o terceiro dia da criação. O número três era considerado um número completo, perfeito, já que em si mesmo encerra o princípio e o fim. E aqui, ao se fechar, transforma-se, no número um, no círculo: de novo nos permite vislumbrar a perfeição absoluta e, talvez, a trindade divina. No canto superior esquerdo aparece uma pequena imagem de Deus, com uma tiara e a Bíblia sobre os joelhos. Na parte superior pode-se ler a frase, extraída do salmo 33, IPSE DIXIT ET FACTA S(OU)NT / IPSE MAN(N)DAVIT ET CREATA S(OU)NT, que significa "Ele o diz, e todo foi feito. Ele o mandou, e tudo foi criado". Outros interpretam que pudera representar a Terra após o dilúvio.

Trítico aberto

Ao abrir-se, o trítico apresenta, no painel esquerdo, uma imagem do paraíso onde se representa o último dia da criação, com Eva e Adão, e no painel central representa a loucura solta: a luxúria. Nesta tábua central aparece o ato sexual e é onde se descobrem todos os prazeres carnais, que são a prova de que o homem perdera a graça. Por último temos a tábua da direita onde se representa a condena no inferno; nela o pintor amostra um palco apoteótico e cruel, no qual o ser humano é condenado pelo seu pecado.
A estrutura da obra, em si, também conta com um enquadre simbólico: ao abrir-se, realmente fecha-se simbolicamente, porque no seu conteúdo está o princípio e o fim humano. O princípio na primeira tábua, que representa o Gênesis e o Paraíso, e o fim na terceira, que representa o Inferno.

The Garden of Earthly Delights by Bosch High Resolution.jpg

Painel esquerdo: O jardim do Éden

Detalhe do Jardim do Éden, Deus e Eva.
 
O postigo da esquerda representa o Paraíso terreno. Mede 220 centímetros de alto por 97,5 cm. de largo. Ao fundo pode ver-se a Fonte da Vida. Em primeiro plano há uma cena totalmente atípica, já que não representa nem a criação de Eva da costela de Adão, também não o jeito de comportar-se no jardim, nem a reconvenção que segue à expulsão do paraíso, os únicos temas relatados na Gênesis em relação a este episódio. Nesta curiosa e original cena aparecem Deus, Eva e Adão. Adão está desperto, o que somente aparece em miniaturas, e Deus está-lhe a apresentar a Eva, recém criada. Deus está representado de uma maneira antiquada para os tempos de Bosch: como Jesus Cristo.[1] Eva encontra-se ajoelhada no chão e toma da mão a Deus. Adão, deitado, olha para a futura pecadora. Junto ao primeiro homem e a primeira mulher aparece a "Árvore do bem e do mal" (uma palmeira) já que ao redor dela se envolve a serpente tentadora e a "Árvore da vida" (um exótico dragoeiro). Dado que no seguinte painel é representado um mundo luxurioso, esta tábua foi interpretada como o prelúdio do que depois acontecerá.
No que à primeira vista parece o típico Éden, associado à idéia de paz e sossego, com pouco que a observarmos, esse idílico palco vê-se truncado. Vários signos de fustigação irrompem, os animais enfrentam-se uns a outros: um leão derriba um cervo e dispõe-se para comê-lo, um estranho bípede é perseguido por um javali. No tanque, as disputas entre os animais voltam: um leopardo leva na boca um lagarto, uma ave devora uma rã. São sinais alheios à paz paradisíaca que costumam ser interpretados como aviso de pecado.
Rocha antropomorfa.
  • O demônio está escondido nos tanques e as rochas que são, para Bosch, a guarida dos espíritos malignos. Por exemplo, na fonte da vida vemos uma estrutura entre mineral e orgânica, com um orifício pelo qual assoma uma coruja, um explícito símbolo da malícia, que também aparece em "O carro de feno". Cabe a possibilidade de este elemento arquitetônico, similar a uma flecha de uma catedral, no centro do quadro, ser um símbolo fálico preconizador dos prazeres da carne da tábua central.[2] À sua direita, uma rocha cuja forma é o rosto oculto do Diabo, do qual surge a serpente, enroscada na Árvore da fruta proibida. Os estranhos contornos desses montes rochosos do fundo indicam uma possível perturbação da pacífica convivência.[2]
Aparecem na obra animais reais, mas extremamente exóticos, à época de Bosch, como girafas, elefantes, leões, leopardos, quando África era praticamente desconhecida na Europa. O autor somente pôde ter referência dessas bestas através dos "Bestiários mitológicos" medievais (que sem dúvida superou com acréscimos) e os desenhos que começavam a circular graças à imprensa, sobretudo os que tinham o Egito como tema principal.
A obra apresenta um intenso e variado cromatismo. Predominam os verdes e o azul intenso do fundo, que contrastam com o manto vermelho de Deus e a brancura dos corpos de Adão e Eva.[1]

Painel central: O jardim das delícias terrenas

Detalhe.
 
A tábua central é o Jardim das Delícias Terrenas, propriamente dito; mede 220 cm de alto por 195 de largo. Um falso paraíso no qual a humanidade já sucumbiu em pleno ao pecado, especialmente à luxúria, e dirige-se à sua perdição. Dezenas de símbolos diferentes, cujas chaves só podem ser suspeitas, povoam este espaço opressivo e angustioso no qual a loucura se apoderou do mundo. Aparecem tanto homens como mulheres, brancos e pretos, despidos. Mostram-se todo tipo de relações sexuais e cenas eróticas, nomeadamente heterossexuais, mas também homossexuais e onanistas. Além disso, aparecem também relações eróticas ou sexuais entre animais, e mesmo entre plantas.
  • A parte inferior da tábua está dominada por numerosos nus, em grupos ou em casais, com estranhas plantas, minerais e conchas ou comendo grandes frutos.[1] Todas as frutas (cerejas, framboesas, fresas, uvas, medronheiros, etc.), são uma clara alusão aos prazeres sexuais. Mas, ao mesmo tempo, as frutas simbolizam a fugacidade de tal prazer, pois passam em uns dias da frescura à putrefação.
  • Sobretudo à esquerda há pássaros de grandes proporções. Estas aves, como o pisco-de-peito-ruivo são também símbolos eróticos, em concreto da lascívia.
  • As estranhas estruturas que aprisionam e oprimem as personagens às vezes são como pompas, outras como conchas. Dão a conhecer indiretamente que o pecado se apodera do ser humano, o corrompe e pega para sempre. Muitas destas estruturas recordam a alambiques ou balões, o que faz que alguns historiadores considerem que provavelmente os significados intrínsecos da obra se encontrem ligados ao mundo da alquimia.[4]
  • Os tanques não são limpos, senão focos de concupiscência, fonte e origem de todos os males que reflete a pintura; de fato, naquela época, referir-se ao banho podia aludir a Vênus e, pelo tanto, ao amor carnal. No centro da tábua aparece um tanque, cuja forma circular fica sublinhada por um cortejo de ginetes, composto quase exclusivamente por homens despidos[2] montados em animais variados, reais ou fantásticos, como leopardos, leões, ossos, unicórnios, cervos, asnos, grifos, tomados dos bestiários medievais.[1] Interpretou-se a aparição desses animais como símbolos da luxúria. O tanque poderia representar a fonte da eterna juventude, um motivo muito estendido na pintura do século XVI, ou talvez forem as águas nas quais os homens banham seus pecados.[2] Também se considerou que poderia ser o «tanque do adultério», no qual, enquanto os homens cavalgam em círculo ao redor, as mulheres se banham, e levam tocados de corvos (incredulidade), pavões-indianos (símbolo da vaidade), íbis e outros. Detrás há um tanque no qual abóia um enorme globo gris azulado, utilizado para realizar acrobacias lascivas por parte das personagens luxuriosos,[4] e há um rio dividido em quatro ramais. Seria o «labirinto da voluptuosidade, com o tanque no qual aboia o enorme globo cinza azulado da "fonte do adultério"»; nos seus quatro cantos, umas estranhas colinas-torres, excêntricas construções vegetais e minerais. Os quatro ramais nos quais se divide a corrente seriam os quatro rios do Paraíso terreno.[1]
  • Chocam sobremaneira as extraordinárias dimensões dos animais (peixes e mexilhões incluídos) e as plantas que chega mesmo a ultrapassar a estatura dos homens. É a ideia do mundo ao revés muito presente na linguagem iconográfica e literária da época (A nave dos loucos de Sebastian Brandt ou o Elogio da loucura, de Erasmo, que deveu de ser escrito em 1508, são amostras disso). Há uma obsessão por apresentar animais e pessoas em posições invertidas: um de eles aparece com a cabeça e o torso submergidos na água enquanto abre as pernas em forma de Y. Junto às construções fantásticas da parte superior da tábua, uns homens levam pendurado a um animal de um pau, mas este, em vez de ficar suspendido naturalmente, aparece boca acima desafiando as regras da gravidade. Todas estas cenas mostram que nos encontramos ante um falso paraíso no qual todo o que em ele é representado não é o que parece.
  • Outro elemento chave da tábua é a falta de diferenciação sexual. Apenas distinguimos os homens das mulheres. Os únicos signos de diferenciação entre os dois sexos são os peitos femininos (nunca voluptuosos demais) e os genitais masculinos. Poderia ser que Bosch buscara assim mostrar que toda a humanidade estava implicada no pecado.
Eva escondida numa caverna e assinalada por João Baptista como culpável.
  • Na parte inferior da tábua podem-se apreciar outros dois elementos simbólicos. Concorrem vários personagens. Um de eles, o único que aparece vestido em todo o quadro, olha claramente para fora, estabelecendo uma cumplicidade com o espectador. Sinala uma mulher deitada que parece ser Eva. Detrás do homem vestido irrompe um terceiro personagem. Com respeito de quem é o homem vestido há várias teorias. Dirk Bax, por exemplo, identifica-o como Adão enquanto o homem que aparece por detrás saindo de uma caverna seria Noé anunciando uma nova era após o dilúvio. Mateus tem outra teoria. O varão apetrechado é João Baptista, que sempre é representado com uma pele esfiapada e assinalando sempre algo, o Anho normalmente. Aqui, porém, Bosch nos surpreenderia uma vez mais. O Baptista não aparece assinalando para o que tira os pecados do mundo (o Anho) senão precisamente para a que os trouxe, Eva. A caverna pela qual irrompe São João seria o símbolo de entrada no limbo tal como descreve o evangelho apócrifo de Nicodemos. São João encarnaria desta forma o gonzo entre o mundo anterior ao pecado e o mundo terreno. Por outro lado, há outra obra interessante de Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis contra os maniqueus, na qual o célebre autor assinala que a morte está fixada na túnica de peles: «Eles ter-se-iam coberto de folhas e Deus entregou-lhes túnicas de peles, os cobriu com a mortalidade desta vida». Este significado é o que faz pensar aos estudiosos que sob dessa túnica encontra-se o casal original. Desde a caverna tornam-se testemunhas do que sobreveio ao mundo pela sua culpa. Além disso, no canto inferior esquerdo, há um grupo de homens que estão assinalando para a tábua anterior, em especial para Eva, o qual foi interpretado como uma clara acusação à mulher como responsável de ter sucumbido à tentação da serpente cometendo o pecado pelo qual pagará toda a humanidade. A misoginia é conhecida o suficiente na época na qual Bosch pinta o "Jardim das Delícias Terrenas". Erasmo falava da necessidade da mulher, assinalando que esta somente servia para procurar prazer ao homem, o qual também roçava a necessidade quando as buscava.
Esta é a interpretação tradicional do painel central. Porém, houve outras que se afastam da mesma, levando em conta que Bosch realmente não condena o que se está vendo neste painel, ao contrário, parece um mundo positivo, altamente «desejável». É representado um universo de felicidade, sem dor, doença nem morte. Não se representa o passar do tempo (não há crianças nem anciãos), também não se vê ninguém trabalhando para ganhar o sustento com o suor da sua frente. Descreve uma humanidade diversa alimentada dos frutos da terra e organizada em estruturas naturais. Portanto, W. Fraenger creu ver na obra uma ilustração das concepções religiosas da seita herética dos adamitas, tese que hoje não goza de aceitação. Paul Vandenbroeck (2001) defendeu que aqui se representa a Montanha de Vênus (3l Grial), conhecida no final do período medieval como o «falso paraíso», se bem que, como as teses tradicionais, entende que é «pecador e demoníaco». Juan Antonio Ramírez[5] defende, por outro lado, que o que se está representando realmente, dado que há uma continuidade da paisagem em relação à tábua da esquerda, uma ilustração do Gênesis. Estar-se-ia descrevendo o Paraíso terreno, de acordo com o Gênesis:
Cquote1.svg E o Senhor Deus fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida, bem como a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal / E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços Cquote2.svg
— Capítulo II do Gênesis[6]
Estar-se-ia representando o paraíso tal como, segundo o cristianismo, o criara Deus, mas não como o local onde pecou Eva, senão como o paraíso ideal, o que devera ser se Eva não pecasse senão seguisse as ordens de Deus:
Cquote1.svg Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a.. Cquote2.svg
— Gênesis, 1:28-29
,
Cquote1.svg E ambos estavam nus, o homem e sua mulher; e não se envergonhavam. Cquote2.svg
— Gênesis, 2:25
.
A figura da personagem que provavelmente seja João Baptista assinalaria admonitoriamente que esse é o mundo descrito por Deus, povoado por uma multidão de felizes inocentes, que não pôde chegar a existir devido à queda, e por isso situa a culpável, Eva, encerrada numa caverna e com um escudo de cristal.[5]

Painel direito: O inferno

Inferno musical.
 
O postigo da direita representa o Inferno. Mede 220 cm de alto por 97,5 de largo.
Também é conhecido como "O inferno musical", pelas múltiplas representações de instrumentos musicais que aparecem. Ignora-se por que Bosch associa a música com o pecado. Pintou os tormentos do inferno, aos quais fica exposta a Humanidade. Descreve um mundo onírico, demoníaco, opressivo, de inumeráveis tormentos.[2] É uma tábua muito sombria em relação ao colorido das outras duas: tons lívidos do inferno de gelo, vivas chamas do inferno de fogo.[1] A tábua pode-se dividir em três níveis.
No nível superior vê-se a típica imagem do inferno, com fogo e torturas. As arquiteturas são sumidas em estranhas iluminações fosforescentes.[4] Esse incêndio, que realmente representa a paisagem noturna de uma cidade em chamas, relacionou-se com um trauma do pintor, que viu quando era jovem como a sua localidade natal era vítima do fogo. Certamente, estas representações de cidades em chamas podem-se ver em outros quadros do autor. A atmosfera resulta totalmente demoníaca.[4] A crítica parece coincidir em que a faca unida às duas orelhas é um genital masculino, enquanto a gaita-de-fole que um monstro sustém sobre a cabeça poderia ser um elemento homossexual ou, tal vez, feminino.
Na parte central, aparece um mundo onírico, com criaturas fantásticas, e cuja figura central num "homem-árvore", conhecido também por um desenho autógrafo do Museu Albertina de Viena.[1] Olha diretamente para o espectador. Interpretou-se em numerosas ocasiões como o rosto do próprio artista e que com uma torpe vendagem tenta ocultar uma chaga produzida pela sífilis. Sobre a cabeça leva um disco, no qual bailam pequenos monstros.[2] Os seus braços são como troncos de árvore e estão descansando sobre barcas. Seu tórax está aberto e oco, e no seu interior há mais seres. Sob de ele há um lago geado, sobre o que patinam alguns condenados, enquanto o gelo se quebra. Na Idade Média considerava-se o contraste entre o frio e o calor como uma das torturas do inferno. Destaca-se uma personagem com cabeça de ave rapaz sentado num retrete. Pensa-se que poderia ser Satanás devorando os condenados e defecando-os num poço preto no qual outros personagens vomitam imundícias ou excrementam ouro. Sob o manto de Satanás uma mulher é acossada por um ente cuja face é um espelho onde ela se reflete.
Na parte inferior, aparecem o que seria o inferno musical propriamente dito, em onde os instrumentos musicais aparecem transformados em instrumentos de tortura. Embaixo, à direita, vê-se a um homem abraçado por um porco. É um simbolismo do que acontece às pessoas do painel central, do Jardim das Delícias Terrenas, devido ao seu comportamento.

Estilo

Estes quadros parecem uma censura implacável, mas a sua inacabável fantasia, e o enquadre poético os faz, apesar de tudo, divertidos e otimistas. Sua ironia e burla do mundo se contrapõem com o realismo hierático de Jan Van Eyck.
  • O objetivo parece ser o de moralizar mediante ácidas críticas, que recordam a tradição medieval que se servia da deformação e a caricatura para revelar a malícia das suas personagens. Esta é a opinião tradicional, como considera seu primeiro analista, Frei José de Sigüenza (1605):
Cquote1.svg A diferença entre as pinturas de Bosch e as de outros é que os demais procuraram pintar o homem qual parece por fora; somente ele o ousou pintar qual é por dentro (...). Os quadros de Bosch não são disparates, senão uns livros de grande prudência e artifício, e os o nossos sim são disparates, não os seus; em síntese, é uma sátira pintada dos pecados e desvarios dos homens.[3] Cquote2.svg
  • Recursos pictóricos: Porém, Bosch supera as suas fontes graças à bagagem herdada dos Van Eyck e outros pintores flamencos, que lhe proporcionaram numerosas ferramentas pictóricas. À crueza medieval acrescenta, agora, uma visão poética graças aos recursos nos quais Bosch era um mestre: foi um grande desenhista, um mestre da cor do chiaroscuro, o tratamento da luz e da perspectiva; a paisagem (luminosa ou crepuscular), que apesar de ser irreal é sempre lírica. O claro cromatismo da ala esquerda e da tábua central comparou-se com miniaturas persas (L. v. Puyvelde), enquanto a grandiosa representação noturna da parte superior do inferno anuncia as cenas de noite dos séculos XVI e XVII.[2]
  • Composição: É aparentemente caótica, com múltiplas cenas colocadas sem uma ordenação espacial clara, embora que todas as cenas pareçam existir grandes objetos que agem como eixos organizadores (as fontes na primeira tábua, os tanques na segunda, e o homem-árvore e a sanfona na terceira). Coloca sempre a linha do horizonte muito alta para conseguir profundeza e poder pôr planos sucessivos que, apesar da sua independência, se fundem entre eles. Apesar de ser composto por numerosos pequenos detalhes, o trítico baseia-se numa composição muito reflexionada. O paraíso e a terra estão unidos pela mesma claridade e um mesmo horizonte, repetindo nelas a estrutura circular e as lagoas. Porém, o inferno é diferente, noturno, sem esperança.[2]

O autor

Bosch (1450–1516) chamava-se Hieronymus Van Aken, sendo apelidado Bosch (pela sua povoação Den Bosch ou 's-Hertogenbosch, em Holanda); teve uma vida acomodada, já que se casou com uma mulher endinheirada (Aleyt van Mervende). Apesar de viver como um opulento burguês, estava obsedado com a religião, o pecado e o sexo. Especulou-se muito com respeito das ideias que o pudessem ter inspirado: talvez fosse um visionário, um herege, um obsesso sexual, ou confrade de alguma seita herética; embora tudo pareça indicar que não foi nada disso, senão simplesmente um moralista culto e comprometido eticamente com uma causa, coisa que dificilmente apreciamos em Jan van Eyck, por exemplo.