domingo, 3 de julho de 2016

LUÍS VAZ DE CAMÕES : ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE

Personagens Históricos - Cinema
LUÍS VAZ DE CAMÕES : ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE
Não podia deixar de neste blog fazer uma humilde homenagem ao maior poeta Português que o mundo conheceu. A grandeza da sua poesia só é comparável à grandeza da sua alma e do então Império Luso que se estendia um pouco por todo mundo. Adivinha-se essa grandeza de ideais nos seus poemas. Mas se alguma coisa me agrada em Camões, é a capacidade que teve de captar e transcrever em versos, a enorme alma Lusitana. Este nosso pensar e sentir que ainda hoje se revela tão actual. No estudar de seus versos, vislumbramos a sociedade e a mentalidade daquele período aureo da nossa história que foi o quinhentista.
Da vida de Camões sabe-se pouco. Apenas episódios soltos que nos permitem imaginar a sua alma e os costumes da época. Uma vida trágica e épica que parecia anunciar as portas da tragédia vindoura em que Portugal se achava em vésperas da tragédia de Alcácer-Quibir.
Aqui fica esta pequena homenagem, resumida ao filme Português de Leitão de Barros, produzido por António Lopes Ribeiro, acerca da vida e obra de Camões; Segue-se um excelente documentário acerca do poeta; Completam ainda esta homenagem, uma ampla informação escrita e histórica acerca da sua vida.
Se ainda não o conhece, aqui tem revelado Camões, um poeta imortal e universal. O maior que o nosso povo viu.

* José Rui Lira

Texto: Português
Áudio: Português
Fontes: YouTube - Wikipédia - RTP 2




CINEMA
CAMÕES - ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE 

Camões é um filme português, realizado por José Leitão de Barros, que relata a vida e os feitos do grande poeta Luís de Camões. Concorreu à primeira edição do Festival de cinema de Cannes em 1946. O filme é uma das obras primas do nosso cinema e contém um elenco de luxo, com alguns dos melhores actores nacionais da época e que ficariam na nossa memória por muitos anos.


Elenco





  
DOCUMENTÁRIO
QUEM ÉS TU LUÍS VAZ DE CAMÕES ?

Um excelente documentário da RTP 2, retirado do programa "Grandes Escritores Portugueses", acerca da História, vida e obra de Luís Vaz de Camões. 






Luís de Camões


Luís Vaz de Camões
O retrato de Camões por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende. Este é considerado o mais autêntico retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida.
Nascimento ca. 1524
Lisboa ?, Reino de Portugal Portugal
Morte 10 de junho de 1580 (56 anos)
Lisboa, Reino de Portugal Portugal
Nacionalidade Portugal português
Ocupação Poeta, soldado
Magnum opus Os Lusíadas

Luís Vaz de Camões (Lisboa[?], ca., 1524Lisboa, 10 de junho de 1579 ou 1580)[nota 1] foi um poeta nacional de Portugal, considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas do Ocidente.[1]
Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Aparentemente nasceu em Lisboa, de uma família da pequena nobreza. Sobre a sua infância tudo é conjetura mas, ainda jovem, terá recebido uma sólida educação nos moldes clássicos, dominando o latim e conhecendo a literatura e a história antigas e modernas. Pode ter estudado na Universidade de Coimbra, mas a sua passagem pela escola não é documentada. Frequentou a corte de D. João III, iniciou a sua carreira como poeta lírico e envolveu-se, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebeias, além de levar uma vida boémia e turbulenta. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, autoexilou-se em África, alistado como militar, onde perdeu um olho em batalha. Voltando a Portugal, feriu um servo do Paço e foi preso. Perdoado, partiu para o Oriente. Passando lá vários anos, enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas. De volta à pátria, publicou Os Lusíadas e recebeu uma pequena pensão do rei D. Sebastião pelos serviços prestados à Coroa, mas nos seus anos finais parece ter enfrentado dificuldades para se manter.
Logo após a sua morte a sua obra lírica foi reunida na coletânea Rimas, tendo deixado também três obras de teatro cómico. Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia, ganhando prestígio sempre crescente entre o público e os conhecedores e influenciando gerações de poetas em vários países. Camões foi um renovador da língua portuguesa e fixou-lhe um duradouro cânone; tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria e é uma referência para toda a comunidade lusófona internacional. Hoje a sua fama está solidamente estabelecida e é considerado um dos grandes vultos literários da tradição ocidental, sendo traduzido para várias línguas e tornando-se objeto de uma vasta quantidade de estudos críticos.

Vida

Origens e juventude

Boa parte das informações sobre a biografia de Camões suscita dúvidas e, provavelmente, muito do que sobre ele circula não é mais do que o típico folclore que se forma em torno de uma figura célebre. São documentadas apenas umas poucas datas que balizam a sua trajetória.[2] A Casa ancestral dos Camões tinha as suas origens na Galiza, não longe do Cabo Finisterra. Por via paterna, Luís de Camões seria descendente de Vasco Pires de Camões, trovador galego, guerreiro e fidalgo, que se mudou para Portugal em 1370 e recebeu do rei grandes benefícios em cargos, honras e terras, e cujas poesias, de índole nacionalista, contribuíram para afastar a influência bretã e italiana e conformar um estilo trovadoresco nacional.[3] [4] O seu filho Antão Vaz de Camões serviu no Mar Vermelho e casou-se com Dona Guiomar da Gama, aparentada com Vasco da Gama. Deste casamento nasceram Simão Vaz de Camões, que serviu na Marinha Real e fez comércio na Guiné e na Índia, e outro irmão, Bento, que seguiu a carreira das Letras e do sacerdócio, ingressando no Mosteiro de Santa Cruz dos Agostinhos, que era uma prestigiada escola para muitos jovens fidalgos portugueses. Simão casou com Dona Ana de Sá e Macedo, também de família fidalga, oriunda de Santarém. Seu filho único, Luís Vaz de Camões, segundo Jayne, Fernandes e alguns outros autores, terá nascido em Lisboa, em 1524. Três anos depois, estando a cidade ameaçada pela peste, a família mudou-se, acompanhando a corte, para Coimbra.[3] [5] Entretanto, outras cidades reivindicam a honra de ser o seu berço: Coimbra, Santarém e Alenquer. Apesar de os primeiros biógrafos de Camões, Severim de Faria e Manoel Correa, terem inicialmente dado o seu ano de nascimento como 1517,[6] registos das Listas da Casa da Índia, mais tarde consultados por Manuel de Faria e Sousa, parecem estabelecer que Camões nasceu efectivamente em Lisboa, em 1524.[7] [8] [9] Os argumentos para tirar a sua naturalidade de Lisboa são fracos; mas esta tampouco está completamente fora de dúvida,[10] [11] e por isso a crítica mais recente considera seu local e data de nascimento incertos.[5] [12]
Sobre a sua infância permanece a incógnita. Aos doze ou treze anos teria sido protegido e educado pelo seu tio Bento que o encaminhou para Coimbra para estudar. Diz a tradição que foi um estudante indisciplinado, mas ávido pelo conhecimento, interessando-se pela história, cosmografia e literatura clássica e moderna. Contundo, o seu nome não consta dos registos da Universidade de Coimbra, mas é certo, a partir do seu elaborado estilo e da profusão de citações eruditas que aparecem nas suas obras que, de alguma forma, recebeu uma sólida educação. É possível que o próprio tio o tenha instruído, sendo a esta altura chanceler da Universidade e prior do Mosteiro de Santa Cruz, ou tenha estudado no colégio do mosteiro. Com cerca de vinte anos ter-se-ia transferido para Lisboa, antes de concluir os estudos. A sua família era pobre, mas sendo fidalga, pôde ser admitido e estabelecer contactos intelectuais frutíferos na corte de D. João III, iniciando-se na poesia.[12] [13] [14]
Foi aventado que ganhava a vida como precetor de Francisco, filho do Conde de Linhares, D. António de Noronha, mas hoje em dia isso parece pouco plausível.[14] Conta-se também que levava uma vida boémia, frequentando tavernas e envolvendo-se em arruaças e relações amorosas tumultuosas. Várias damas aparecem citadas pelo nome em biografias tardias do poeta como tendo sido objeto de seus amores, mas embora não se negue que deva ter amado, e até mais de uma mulher, aquelas identificações nominais são atualmente consideradas adições apócrifas à sua lenda. Entre elas, por exemplo, falou-se de uma paixão pela Infanta Dona Maria, irmã do rei, audácia que lhe teria valido um tempo na prisão, e Catarina de Ataíde, que, sendo outro amor frustrado, segundo versões teria causado o seu autoexílio, primeiro no Ribatejo, e depois alistando-se como soldado em Ceuta. Os motivos para a viagem são duvidosos, mas a sua estada ali é aceite como facto, permanecendo dois anos e perdendo o olho direito em batalha naval no Estreito de Gibraltar. De regresso a Lisboa, não tardou em retomar a vida boémia.[15] [16] [17]
Data de 1550 um documento que o dá como alistado para viajar à Índia: "Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria; escudeiro, de 25 anos, barbirruivo, trouxe por fiador a seu pai; vai na nau de S. Pedro dos Burgaleses... entre os homens de armas". Afinal não embarcou de imediato. Numa procissão de Corpus Christi altercou com um certo Gonçalo Borges, empregado do Paço, e feriu-o com a espada. Condenado à prisão, foi perdoado pelo agravado em carta de perdão. Foi libertado por ordem régia em 7 de março de 1553, que diz: "é um mancebo e pobre e me vai este ano servir à Índia". Manuel de Faria e Sousa encontrou nos registos da Armada da Índia, para esse ano de 1553, sob o título "Gente de guerra", o seguinte assento: "Fernando Casado, filho de Manuel Casado e de Branca Queimada, moradores em Lisboa, escudeiro; foi em seu lugar Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, escudeiro; e recebeu 2400 como os demais".[18]


Camões na prisão de Goa, em pintura anónima de 1556.

Camões na gruta de Macau, em gravura de Desenne, 1817.

Oriente

Viajou na nau São Bento, da frota de Fernão Álvares Cabral, que largou do Tejo em 24 de março de 1553. Durante a viagem passou pelas regiões onde Vasco da Gama navegara, enfrentou uma tempestade no Cabo da Boa Esperança onde se perderam as três outras naus da frota, e aportou em Goa em 1554. Logo se alistou no serviço do vice-rei D. Afonso de Noronha e combateu na expedição contra o rei de Chembé (ou "da Pimenta").[19] Em 1555, sucedendo a Noronha D. Pedro Mascarenhas, este ordenou a Manuel de Vasconcelos que fosse combater os mouros no Mar Vermelho. Camões acompanhou-o, mas a esquadra não encontrou o inimigo e foi invernar a Ormuz, no Golfo Pérsico.[20]
Provavelmente nesta época já iniciara a escrita de Os Lusíadas. Ao retornar a Goa em 1556, encontrou no governo D. Francisco Barreto, para quem compôs o Auto de Filodemo, o que sugere que Barreto lhe fosse favorável. Os primeiros biógrafos, contudo, divergem sobre as relações de Camões com o governante. Na mesma época teria surgido a público uma sátira anónima criticando a imoralidade e a corrupção reinantes, que foi atribuída a Camões. Sendo as sátiras condenadas pelas Ordenações Manuelinas, terá sido preso por isso. Mas colocou-se a hipótese de a prisão ter ocorrido graças a dívidas contraídas. É possível que permanecesse na prisão até 1561, ou antes disso tenha sido novamente condenado, pois, assumindo o governo D. Francisco Coutinho, foi por ele liberto, empregado e protegido. Deve ter sido nomeado para a função de Provedor-mor dos Defuntos e Ausentes para Macau em 1562, desempenhando-a de facto de 1563 até 1564 ou 1565. Nesta época, Macau era um entreposto comercial ainda em formação, sendo um lugar quase deserto.[21] [22] Diz a tradição que ali teria escrito parte dOs Lusíadas numa gruta, que mais tarde recebeu o seu nome.[20]
Na viagem de volta a Goa, naufragou, conforme diz a tradição, junto à foz do rio Mekong, salvando-se apenas ele e o manuscrito dOs Lusíadas, evento que lhe inspirou as célebres redondilhas Sobre os rios que vão, consideradas por António Sérgio a coluna vertebral da lírica camoniana, sendo reiteradamente citadas na literatura crítica. O trauma do naufrágio, conforme disse Leal de Matos, repercutiu mais profundamente numa redefinição do projeto dOs Lusíadas, sendo perceptível a partir do Canto VII, sendo acusada já por Diogo do Couto, seu amigo, que em parte acompanhou a escrita. Provavelmente o seu resgate demorou meses a ocorrer, e não há registo de como isso ocorreu, mas foi levado a Malaca, onde recebeu nova ordem de prisão por apropriação indébita dos bens dos defuntos a ele confiados. Não se sabe a data exata de seu retorno a Goa, onde pode ter continuado preso ainda algum tempo. Couto refere que no naufrágio morreu Dinamene, uma donzela chinesa pela qual Camões se terá apaixonado, mas Ribeiro e outros afirmam que a história deve ser rejeitada.[23] O vice-rei seguinte, D. Antão de Noronha, era um amigo de longa data de Camões, tendo-o encontrado em Marrocos. Certos biógrafos afirmam que lhe foi prometido um posto oficial na feitoria de Chaul, mas não chegou a tomar posse. Severim de Faria disse que os anos finais passados em Goa foram entretidos com a poesia e com as atividades militares, onde sempre demonstrou bravura, prontidão e lealdade à Coroa.[24]
É difícil determinar como terá sido o seu quotidiano no Oriente, além do que se pode extrapolar a partir de sua condição de militar. Parece certo que viveu sempre modestamente e pode ter compartilhado casa com amigos, "numa dessas repúblicas em que era costume associarem-se os reinóis", como citou Ramalho. Alguns desses amigos devem ter possuído cultura e assim a companhia ilustrada não devia estar ausente naquelas paragens. Ribeiro, Saraiva e Moura admitem que ele pode ter encontrado, entre outras figuras, com Fernão Mendes Pinto, Fernão Vaz Dourado, Fernão Álvares do Oriente, Garcia de Orta e o já citado Diogo do Couto, criando-se oportunidades de debates literários e assuntos afins. Pode ter frequentado também preleções em algum dos colégios ou estabelecimentos religiosos de Goa.[25] Ribeiro acrescenta que
"Esta rapaziada que vivia em Goa, longe da Pátria e da família, no intervalo das campanhas contra o Turco (que ocorriam no verão) e muitos com pouco que fazer (no inverno), para além das preleções acima mencionadas e das leituras compulsivas (das quais muito dos clássicos: Ovídio, Horácio, Virgílio), das mulheres e guitarradas, convivendo entre si independentemente das diferenças sociais, devia reinar, divertir-se quanto baste, mesmo quando fazia poesia, sobretudo sátiras, com forte e negativo impacto social na época, susceptível de pena de prisão (Ordenações Manuelinas, Título LXXIX), e por isso com o pique da aventura e do risco. Exemplo disso é a Sátira do Torneio, uma zombaria a que se refere Faria e Sousa e que, ao contrário da Os Disbarates da Índia, não temos notícia de uma contestação erudita da autoria camoniana e que pode estar na origem de uma das prisões do nosso vate." [26]
É possível ainda que em tais reuniões, onde compareciam homens ao mesmo tempo de armas e de letras, e que buscavam, além do sucesso militar e a fortuna material, também a fama e a glória nascidas da cultura, como era uma das grandes aspirações do Humanismo do seu tempo, estivesse presente a ideia de uma academia, reproduzindo no Oriente, dentro das limitações do contexto local, o modelo das academias renascentistas como a fundada em Florença por Marsilio Ficino e seu círculo, onde eram cultivados os ideais neoplatónicos.[27]

Regresso a Portugal


Camões lendo Os Lusíadas a D. Sebastião, em litografia de 1893.
A convite, ou aproveitando a oportunidade de vencer parte da distância que o separava da pátria, não se sabe ao certo, em dezembro de 1567 Camões embarcou na nau de Pedro Barreto para Sofala, na ilha de Moçambique, onde este havia sido designado governador, e lá esperaria por um transporte para Lisboa em data futura. Os primeiros biógrafos dizem que Pedro Barreto era traiçoeiro, fazendo promessas vãs a Camões, de tal modo que, passados dois anos, Diogo do Couto o encontrou em precária condição,[28] [29] conforme se lê no registo que deixou:
"Em Moçambique achamos aquele Príncipe dos Poetas de seu tempo, meu matalote e amigo Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e, para se embarcar para o reino, lhe ajuntamos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer. E aquele inverno que esteve em Moçambique, acabando de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, foi escrevendo muito em um livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe juntaram (roubaram). E nunca pude saber, no reino dele, por muito que inquiri. E foi furto notável.[30] [31]
Ao tentar seguir de volta com Couto foi embargado em duzentos cruzados por Barreto, por conta dos gastos que tivera com o poeta. Os seus amigos, porém, reuniram a quantia e Camões foi liberado,[32] chegando a Cascais a bordo da nau Santa Clara em 7 de abril de 1570.[28] [29]
Depois de tantas peripécias, finalizou Os Lusíadas, tendo-os apresentado em récita para o rei D. Sebastião. O rei, ainda um adolescente, determinou que o trabalho fosse publicado em 1572, concedendo também uma pequena pensão a "Luís de Camões, cavaleiro fidalgo de minha Casa", em paga pelos serviços prestados na Índia. O valor desta pensão não excedeu os quinze mil réis anuais, o que se não era grande coisa, também não era tão pouca como se tem sugerido, considerando que as damas de honra do Paço recebiam cerca de dez mil réis. Para um soldado veterano, a soma deve ter sido considerada suficiente e honrosa na época. Mas a pensão só deveria se manter por três anos, e embora a outorga fosse renovável, parece que foi paga de forma irregular, fazendo com que o poeta passasse por dificuldades materiais.[33] [34]


Túmulo do poeta no Mosteiro dos Jerónimos.
Viveu seus anos finais num quarto de uma casa próxima da Igreja de Santa Ana, num estado, segundo narra a tradição, da mais indigna pobreza, "sem um trapo para se cobrir". Le Gentil considerou essa visão um exagero romântico, pois ainda podia manter o escravo Jau, que trouxera do oriente, e documentos oficiais atestam que dispunha de alguns meios de vida. Depois de ver-se amargurado pela derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir, onde desapareceu D. Sebastião, levando Portugal a perder sua independência para Espanha, adoeceu, segundo Le Gentil, de peste. Foi transportado para o hospital,[35] e faleceu em 10 de junho de 1580, sendo enterrado, segundo Faria e Sousa, numa campa rasa na Igreja de Santa Ana, ou no cemitério dos pobres do mesmo hospital, segundo Teófilo Braga.[36] [37] A sua mãe, tendo-lhe sobrevivido, passou a receber a sua pensão em herança. Os recibos, encontrados na Torre do Tombo, documentam a data da morte do poeta,[5] embora tenha sido preservado um epitáfio escrito por D. Gonçalo Coutinho, onde consta, erroneamente, como tendo falecido em 1579.[38] Depois do terramoto de 1755, que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas para se reencontrar os despojos de Camões, todas frustradas. A ossada que foi depositada em 1880 numa tumba no Mosteiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa.[39]

Aparência, carácter, amores e iconografia

Os testemunhos dos seus contemporâneos descrevem-no como um homem de porte mediano, com um cabelo loiro arruivado, cego do olho direito, hábil em todos os exercícios físicos e com uma disposição temperamental, custando-lhe pouco engajar-se em brigas. Diz-se que tinha grande valor como soldado, exibindo coragem, combatividade, senso de honra e vontade de servir, bom companheiro nas horas de folga, liberal, alegre e espirituoso quando os golpes da fortuna não lhe abatiam o espírito e entristeciam. Tinha consciência do seu mérito como homem, como soldado e como poeta.[40]
Todos os esforços feitos no sentido de se descobrir a identidade definitiva da sua musa foram vãos e várias propostas contraditórias foram apresentadas sobre supostas mulheres presentes na sua vida. O próprio Camões sugeriu, num dos seus poemas, que houve várias musas a inspirá-lo, ao dizer "em várias flamas variamente ardia".[41] Nomes de damas supostas como suas amadas só constam primitivamente nos seus poemas, e podem pois ser figuras ideais; nenhuma menção a quaisquer damas identificáveis pelo nome é dada nas primeiras biografias do poeta, as de Pedro de Mariz e a de Severim de Faria, que apenas recolheram boatos sobre "uns amores no Paço da Rainha". A citação de Catarina de Ataíde só surgiu na edição das Rimas de Faria e Sousa, em meados do século XVII, e a da Infanta, na de José Maria Rodrigues, que só foi publicada no início do século XX. A decantada Dinamene também parece ser uma imagem poética antes do que uma pessoa real.[42] Ribeiro propôs várias alternativas para explicá-la: o nome talvez fosse um criptónimo de Dona Joana Meneses (D.I.na = D.Ioana + Mene), um de seus possíveis amores, que morrera a caminho das Índias e fora sepultada no mar, filha de Violante, condessa de Linhares, a quem também teria amado ainda em Portugal, e apontou a ocorrência do nome Dinamene em poemas escritos provavelmente em torno da chegada à Índia, antes de ter passado à China, onde se diz que teria encontrado a moça. Também referiu a opinião de pesquisadores que alegam a menção de Couto, a única referência primitiva à chinesa fora da própria obra camoniana, ter sido falsificada, sendo introduzida a posteriori, com a possibilidade de que se trate ainda de um erro de ortografia, uma corruptela de "dignamente". Na versão final do manuscrito de Couto, o nome nem teria sido citado, ainda que a comprovação seja difícil com o desaparecimento do manuscrito.[23]


O retrato pintado em Goa, 1581.
Provavelmente executado entre 1573 e 1575, o chamado "retrato pintado a vermelho", ilustrado na abertura do artigo, é considerado por Vasco Graça Moura como "o único e precioso documento fidedigno de que dispomos para conhecer as feições do épico, retratado em vida por um pintor profissional"[43] . O que se conhece desse retrato é uma cópia, feita a pedido do 3º duque de Lafões, executada por Luís José Pereira de Resende entre 1819 e 1844, a partir do original que foi encontrado num saco de seda verde nos escombros do incêndio do palácio dos Condes da Ericeira, Marqueses de Louriçal, e que entretanto desapareceu. É uma "fidelíssima cópia" que,
"pelas dimensões restritas do desenho, a textura da sanguínea, criando manchas de distribuição dos valores, o rigor dos contornos e a definição dos planos contrastados, o neutro reticulado que harmoniza o fundo e faz ressaltar o busto do retratado, o tipo da barra envolvente nos limites da qual corre em baixo a esclarecedora assinatura, enfim, o aparato simbólico da imagem, captada em pose de ilustração gráfica de livro, se devia destinar à abertura de uma gravura a buril sobre chapa cúprica, para ilustração de uma das primeiras edições de Os Lusíadas".[44]
Sobreviveu também uma miniatura pintada na Índia em 1581, por encomenda de Fernão Teles de Meneses e oferecida ao vice-rei D. Luís de Ataíde, que, segundo testemunhos de época, era muito semelhante à sua aparência.[40] Outro retrato foi encontrado nos anos 1970 por Maria Antonieta de Azevedo, datado de 1556 e mostrando o poeta na prisão.[45] A primeira medalha com sua efígie apareceu em 1782, mandada cunhar pelo Barão de Dillon na Inglaterra, onde Camões figura coroado de louros e vestido em cota de armas, com a inscrição "Apollo Portuguez / Honra de Hespanha / Nasceo 1524 / Morreo 1579". Em 1793, uma reprodução desta medalha foi cunhada em Portugal, por ordem de Tomás José de Aquino, Bibliotecário da Real Mesa Censória.[46]
Ao longo dos séculos a imagem de Camões foi representada inúmeras vezes em gravura, pintura e escultura, por artistas portugueses e estrangeiros, e vários monumentos foram erguidos em sua honra,[47] destacando-se o grande Monumento a Camões instalado em 1867 na Praça Luís de Camões, em Lisboa, de autoria de Victor Bastos, e que é o centro de cerimónias públicas oficiais e manifestações populares.[48] [49] Também foi homenageado em composições musicais, apareceu com sua efígie em medalhas,[47] cédulas monetárias,[50] selos[51] e moedas,[52] e como personagem em romances, poesias e peças teatrais.[53] O filme Camões, realizado por José Leitão de Barros, foi a primeira película portuguesa a participar do Festival de Cannes, em 1946.[54] Entre os artistas célebres que o tomaram como modelo para suas obras se contam Bordalo Pinheiro,[55] José Simões de Almeida,[56] Francisco Augusto Metrass, António Soares dos Reis, Horace Vernet, José Malhoa, Vieira Portuense,[47] Domingos Sequeira[57] e Lagoa Henriques.[58] Uma cratera no planeta Mercúrio e um asteroide da cintura principal receberam o seu nome.[59] [60]

Obra

Contexto

Camões viveu na fase final do Renascimento europeu, um período marcado por muitas mudanças na cultura e sociedade, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna e a transição do feudalismo para o capitalismo. Chamou-se "renascimento" em virtude da redescoberta e revalorização das referências culturais da Antiguidade Clássica, que nortearam as mudanças deste período em direção a um ideal humanista e naturalista que afirmava a dignidade do homem, colocando-o no centro do universo, tornando-o o investigador por excelência da natureza, e privilegiando a razão e a ciência como árbitros da vida manifesta.[61] [62] [63] Nesse período foram inventados diversos instrumentos científicos e foram descobertas diversas leis naturais e entidades físicas antes desconhecidas; o próprio conhecimento da face do planeta modificou-se depois dos descobrimentos das grandes navegações. O espírito de especulação intelectual e pesquisa científica estava em alta, fazendo com que a Física, a Matemática, a Medicina, a Astronomia, a Filosofia, a Engenharia, a Filologia e vários outros ramos do saber atingissem um nível de complexidade, eficiência e exatidão sem precedentes, o que levou a uma conceção otimista da história da humanidade como uma expansão contínua e sempre para melhor.[62] [64] De certa forma, a Renascença foi uma tentativa original e eclética de harmonização do Neoplatonismo pagão com a religião cristã, do eros com a charitas, junto com influências orientais, judaicas e árabes, e onde o estudo da magia, da astrologia e do ocultismo não estavam ausentes.[65] Foi também a época em que se começaram a criar fortes Estados nacionais, o comércio e as cidades se expandiram e a burguesia se tornou uma força de grande importância social e económica, contrastando com o relativo declínio da influência da religião nos assuntos do mundo.[66]
No século XVI, época em que Camões viveu, a influência do Renascimento italiano expandiu-se por toda a Europa. Porém, várias das suas características mais típicas estavam a entrar em declínio, em particular por causa de uma série de disputas políticas e guerras que alteraram o mapa político europeu, perdendo a Itália o seu lugar como potência, e da cisão do Catolicismo, com o surgimento da Reforma Protestante. Na reação católica, lançou-se a Contra-Reforma, reativou-se a Inquisição e reacendeu-se a censura eclesiástica. Ao mesmo tempo, as doutrinas de Maquiavel se tornavam largamente difundidas, dissociando a ética da prática do poder. O resultado foi a reafirmação do poder da religião sobre o mundo profano e a formação de uma atmosfera espiritual, política, social e intelectual agitada, com fortes doses de pessimismo, repercutindo desfavoravelmente sobre a antiga liberdade de que gozavam os artistas. Apesar disso, as aquisições intelectuais e artísticas da Alta Renascença que ainda estavam frescas e resplandeciam diante dos olhos não poderiam ser esquecidas de pronto, mesmo que o seu substrato filosófico já não pudesse permanecer válido diante dos novos factos políticos, religiosos e sociais. A nova arte que se fez, ainda que inspirada na fonte do classicismo, traduziu-o em formas inquietas, ansiosas, distorcidas, ambivalentes, apegadas a preciosismos intelectualistas, características que refletiam os dilemas do século e definem o estilo geral dessa fase como maneirista.[67] [68]
Desde meados do século XV que Portugal se afirmara como uma grande potência naval e comercial, desenvolviam-se as suas artes e fervia o entusiasmo pelas conquistas marítimas. O reinado de D. João II foi marcado pela formação de um sentimento de orgulho nacional, e no tempo de D. Manuel I, como dizem Spina & Bechara, o orgulho havia cedido ao delírio, à pura euforia da dominação do mundo. No início do século XVI Garcia de Resende lamentava-se de que não houvesse quem pudesse celebrar dignamente tantas façanhas, afirmando que havia material épico superior ao dos romanos e troianos. Preenchendo esta lacuna, João de Barros escreveu a sua novela de cavalaria, A Crónica do Imperador Clarimundo (1520), em formato de épico. Pouco depois apareceu António Ferreira, instalando-se como mentor da geração classicista e desafiando os seus contemporâneos a cantarem as glórias de Portugal em alto estilo. Quando Camões surgiu, o terreno estava preparado para a apoteose da pátria, uma pátria que havia lutado encarniçadamente para conquistar a sua soberania, primeiro dos mouros e depois de Castela, havia desenvolvido um espírito aventureiro que a levara pelos oceanos afora, expandindo as fronteiras conhecidas do mundo e abrindo novas rotas de comércio e exploração, vencendo exércitos inimigos e as forças hostis da natureza.[69] Mas nesta altura, porém, a crise política e cultural já se anunciava, materializando-se logo após a sua morte, quando o país perdeu a sua soberania para Espanha.[70]

Visão geral


Andries Pauwels: Busto de Camões, século XVII.
A produção de Camões divide-se em três géneros: o lírico, o épico e o teatral. A sua obra lírica foi desde logo apreciada como uma alta conquista. Demonstrou o seu virtuosismo especialmente nas canções e elegias, mas as suas redondilhas não lhes ficam atrás. De facto, foi um mestre nesta forma, dando uma nova vida à arte da glosa, instilando nela espontaneidade e simplicidade, uma delicada ironia e um fraseado vivaz, levando a poesia cortesã ao seu nível mais elevado, e mostrando que também sabia expressar com perfeição a alegria e a descontração. A sua produção épica está sintetizada nOs Lusíadas, uma alentada glorificação dos feitos portugueses, não apenas das suas vitórias militares, mas também a conquista sobre os elementos e o espaço físico, com recorrente uso de alegorias clássicas. A ideia de um épico nacional existia no seio português desde o século XV, quando se iniciaram as navegações, mas coube a Camões, no século seguinte, materializá-la. Nas suas obras dramáticas procurou fundir elementos nacionalistas e clássicos.[41]
Provavelmente se tivesse permanecido em Portugal, como um poeta cortesão, jamais teria atingido a maestria da sua arte. As experiências que acumulou como soldado e navegador enriqueceram sobremaneira a sua visão de mundo e excitaram o seu talento. Através delas conseguiu livrar-se das limitações formais da poesia cortesã e as dificuldades por que passou, a profunda angústia do exílio, a saudade da pátria, impregnaram indelevelmente o seu espírito e comunicaram-se à sua obra, e dali influenciaram de maneira marcante as gerações seguintes de escritores portugueses. Os seus melhores poemas brilham exatamente pelo que há de genuíno no sofrimento expresso e na honestidade dessa expressão, e este é um dos motivos principais que colocam a sua poesia em um patamar tão alto.[41]
As suas fontes foram inúmeras. Dominava o latim e o espanhol, e demonstrou possuir um sólido conhecimento da mitologia greco-romana, da história antiga e moderna da Europa, dos cronistas portugueses e da literatura clássica, destacando-se autores como Ovídio, Xenofonte, Lucano, Valério Flaco, Horácio, mas especialmente Homero e Virgílio, de quem tomou vários elementos estruturais e estilísticos de empréstimo e às vezes até trechos em transcrição quase literal. De acordo com as citações que fez, também parece ter tido um bom conhecimento de obras de Ptolomeu, Diógenes Laércio, Plínio, o Velho, Estrabão e Pompónio, entre outros historiadores e cientistas antigos. Entre os modernos, estava a par da produção italiana de Francesco Petrarca, Ludovico Ariosto, Torquato Tasso, Giovanni Boccaccio e Jacopo Sannazaro, e da literatura castelhana.[71] [72]
Para aqueles que consideram o Renascimento um período histórico homogéneo, informado pelos ideais clássicos e que se estende até o fim do século XVI, Camões é pura e simplesmente um renascentista, mas de modo geral reconhece-se que o século XVI foi amplamente dominado por uma derivação estilística chamada Maneirismo, que em vários pontos é uma escola anticlássica e de várias formas prefigura o Barroco. Assim, para vários autores, é mais adequado descrever o estilo camoniano como maneirista, distinguindo-o do classicismo renascentista típico. Isso se justifica pela presença de vários recursos de linguagem e de uma abordagem dos seus temas que não estão concordes às doutrinas de equilíbrio, economia, tranquilidade, harmonia, unidade e invariável idealismo que são os eixos fundamentais do classicismo renascentista. Camões, depois de uma fase inicial tipicamente clássica, transitou por outros caminhos e a inquietude e o drama se tornaram seus companheiros. Por todo Os Lusíadas são visíveis os sinais de uma crise política e espiritual, permanece no ar a perspectiva do declínio do império e do carácter dos portugueses, censurados por maus costumes e pela falta de apreço pelas artes, alternando-se a trechos em que faz a sua apologia entusiasmada. Também são típicos do Maneirismo, e se tornariam ainda mais do Barroco, o gosto pelo contraste, pelo arroubo emocional, pelo conflito, pelo paradoxo, pela propaganda religiosa, pelo uso de figuras de linguagem complexas e preciosismos, até pelo grotesco e pelo monstruoso, muitos deles traços comuns na obra camoniana.[68] [70] [73] [74]
O carácter maneirista da sua obra é assinalado também pelas ambiguidades geradas pela ruptura com o passado e pela concomitante adesão a ele, manifesta a primeira na visualização de uma nova era e no emprego de novas fórmulas poéticas oriundas de Itália, e a segunda, no uso de arcaísmos típicos da Idade Média. Ao lado do uso de modelos formais renascentistas e classicistas, cultivou os géneros medievais do vilancete, da cantiga e da trova. Para Joaquim dos Santos, o carácter contraditório da sua poesia encontra-se no contraste entre duas premissas opostas: o idealismo e a experiência prática. Conjugou valores típicos do racionalismo humanista com outros derivados da cavalaria, das cruzadas e do feudalismo, alinhou a constante propaganda da fé católica com a mitologia antiga, responsável no plano estético por toda a ação que materializa a realização final, descartando a aurea mediocritas cara aos clássicos para advogar a primazia do exercício das armas e da conquista gloriosa.[75]

Os Lusíadas


Capa da edição de 1572 dos Lusíadas.
Os Lusíadas é considerada a epopeia portuguesa por excelência. O próprio título já sugere as suas intenções nacionalistas, sendo derivado da antiga denominação romana de Portugal, Lusitânia. É um dos mais importantes épicos da época moderna devido à sua grandeza e universalidade. A epopeia narra a história de Vasco da Gama e dos heróis portugueses que navegaram em torno do Cabo da Boa Esperança e abriram uma nova rota para a Índia. É uma epopeia humanista, mesmo nas suas contradições, na associação da mitologia pagã à visão cristã, nos sentimentos opostos sobre a guerra e o império, no gosto do repouso e no desejo de aventura, na apreciação do prazer sensual e nas exigências de uma vida ética, na percepção da grandeza e no pressentimento do declínio, no heroísmo pago com o sofrimento e luta.[76] [77] O poema abre com os célebres versos:
Cquote1.svg As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
.....
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte
Cquote2.svg
Os Lusíadas, Canto I
Os dez cantos do poema somam 1 102 estrofes num total de 8 816 versos decassílabos, empregando a oitava rima (abababcc). Depois de uma introdução, uma invocação e uma dedicatória ao rei D. Sebastião, inicia a ação, que funde mitos e factos históricos. Vasco da Gama, navegando pela costa da África, é observado pela assembleia dos deuses clássicos, que discutem o destino da expedição, a qual é protegida por Vénus e atacada por Baco. Descansando por alguns dias em Melinde, a pedido do rei local Vasco da Gama narra toda a história portuguesa, desde as suas origens até à viagem que empreendem. Os cantos III, IV e V contêm algumas das melhores passagens de todo o épico: o episódio de Inês de Castro, que se torna um símbolo de amor e morte, a Batalha de Aljubarrota, a visão de D. Manuel I, a descrição do fogo-de-santelmo, a história do gigante Adamastor. De volta ao navio, o poeta aproveita as horas de folga para narrar a história dos Doze de Inglaterra, enquanto Baco convoca os deuses marítimos para que destruam a frota portuguesa. Vénus intervém e os navios conseguem alcançar Calecute, na Índia. Lá, Paulo da Gama recebe os representantes do rei e explica o significado dos estandartes que adornam a nau capitânia. Na viagem de volta os marinheiros desfrutam da ilha para eles criada por Vénus, recompensando-os as ninfas com seus favores. Uma delas canta o futuro glorioso de Portugal e a cena encerra com uma descrição do universo feita por Tétis e Vasco da Gama. Em seguida, a viagem prossegue para casa.[41]


Tétis descreve a Máquina do Mundo ao Gama, ilustração da edição de 1639 de Faria e Sousa.
NOs Lusíadas Camões atinge uma notável harmonia entre erudição clássica e experiência prática, desenvolvida com habilidade técnica consumada, descrevendo as peripécias portuguesas com momentos de grave ponderação mesclados com outros de delicada sensibilidade e humanismo. As grandes descrições das batalhas, da manifestação das forças naturais, dos encontros sensuais, transcendem a alegoria e a alusão classicista que permeiam todo o trabalho e se apresentam como um discurso fluente e sempre de alto nível estético, não apenas pelo seu carácter narrativo especialmente bem conseguido, mas também pelo superior domínio de todos os recursos da língua e da arte da versificação, com um conhecimento de uma ampla gama de estilos, usados em eficiente combinação. A obra é também uma séria advertência para os reis cristãos abandonarem as pequenas rivalidades e se unirem contra a expansão muçulmana.[41]
A estrutura da obra é por si digna de interesse, pois, segundo Jorge de Sena, nada é arbitrário nOs Lusíadas. Entre os argumentos que apresentou foi o emprego da secção áurea, uma relação definida entre as partes e o todo, organizando o conjunto através de proporções ideais que enfatizam passagens especialmente significativas. Sena demonstrou que ao aplicar-se a secção áurea a toda a obra recai-se, precisamente, no verso que descreve a chegada dos portugueses à Índia. Aplicando-se a secção em separado às duas partes resultantes, na primeira parte surge o episódio que relata a morte de Inês de Castro e, na segunda, a estrofe que narra o empenho de Cupido para unir os portugueses e as ninfas, o que para Sena reforça a importância do amor em toda a composição.[78] Dois outros elementos dão a' Os Lusíadas a sua modernidade e distanciam-no do classicismo: a introdução da dúvida, da contradição e do questionamento, em desacordo com a certeza afirmativa que caracteriza o épico clássico, e a primazia da retórica sobre a ação, substituindo o mundo dos factos pelo das palavras, as quais não resgatam totalmente a realidade e evoluem para a metalinguagem, com o mesmo efeito disruptivo sobre a epopeia tradicional.[79]
Segundo Costa Pimpão, não há qualquer evidência de que Camões pretendesse escrever o seu épico antes de ter viajado à Índia, embora temas heróicos já estivessem presentes na sua produção anterior. É possível que tenha retirado alguma inspiração de fragmentos das Décadas da Ásia, de João de Barros, e da História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda. Sobre a mitologia clássica estava com certeza bem informado antes disso, igualmente quanto à literatura épica antiga. Aparentemente, o poema começou a tomar forma já em 1554. Storck considera que a determinação de escrevê-lo nasceu durante a própria viagem marítima. Entre 1568 e 1569 foi visto em Moçambique pelo historiador Diogo do Couto, seu amigo, ainda a trabalhar na obra, que só veio à luz em Lisboa, em 1572.[71]
O sucesso da publicação dOs Lusíadas supostamente obrigara a uma segunda edição no mesmo ano da edição princeps. As duas diferem em inúmeros detalhes e foi longamente debatido qual delas seria de facto a original. Tampouco é claro a quem se devem as emendas do segundo texto. Atualmente reconhece-se como original a edição que mostra a marca do editor, um pelicano, com o pescoço voltado para a esquerda, e que é chamada edição A, realizada sob a supervisão do autor. Entretanto, a edição B foi por muito tempo tomada como a princeps, com consequências desastrosas para a análise crítica posterior da obra. Aparentemente a edição B foi produzida mais tarde, em torno de 1584 ou 1585, de maneira clandestina, levando a data fictícia de 1572 para contornar as delongas da censura da época, se fosse publicada como uma nova edição, e corrigir os graves defeitos de uma outra edição de 1584, a chamada edição Piscos.[80] Contudo, Maria Helena Paiva levantou a hipótese de que as edições A e B sejam apenas variantes de uma mesma edição, que foi sendo corrigida após a composição tipográfica, mas enquanto a impressão já estava em andamento. De acordo com a pesquisadora, "a necessidade de tirar o máximo partido da prensa levava a que, concluída a impressão de uma forma, que constava de vários fólios, fosse tirada uma primeira prova, que era corrigida enquanto a prensa continuava, agora com o texto corrigido. Havia, por isso, fólios impressos não corrigidos e fólios impressos corrigidos, que eram agrupados indistintamente no mesmo exemplar", fazendo com que não existissem dois exemplares rigorosamente iguais no sistema de imprensa daquela época.[81]

Rimas


Capa da primeira edição das Rimas, de 1595.
A obra lírica de Camões, dispersa em manuscritos,[82] foi reunida e publicada postumamente em 1595 com o título de Rimas. Ao longo do século XVII, o crescente prestígio do seu épico contribuiu para elevar ainda mais o apreço por estas outras poesias. A coletânea compreende redondilhas, odes, glosas, cantigas, voltas ou variações, sextilhas, sonetos, elegias, éclogas e outras estâncias pequenas. A sua poesia lírica procede de várias fontes distintas: os sonetos seguem em geral o estilo italiano derivado de Petrarca, as canções tomaram o modelo de Petrarca e de Pietro Bembo. Nas odes verifica-se a influência da poesia trovadoresca de cavalaria e da poesia clássica, mas com um estilo mais refinado; nas sextilhas aparece clara a influência provençal; nas redondilhas expandiu a forma, aprofundou o lirismo e introduziu uma temática, trabalhada em antíteses e paradoxos, desconhecida na antiga tradição das cantigas de amigo, e as elegias são bastante classicistas. As suas estâncias seguem um estilo epistolar, com temas moralizantes. A écoglas são peças perfeitas do género pastoral, derivado de Virgílio e dos italianos.[83] [84] [85] Em muitos pontos de sua lírica também foi detectada a influência da poesia espanhola de Garcilaso de la Vega, Jorge de Montemor, Juan Boscán, Gregorio Silvestre e vários outros nomes, conforme apontou seu comentador Faria e Sousa.[86]
A despeito dos cuidados do primeiro editor das Rimas, Fernão Rodrigues Lobo Soropita, na edição de 1595 foram incluídos vários poemas apócrifos. Muitos poemas foram sendo descobertos ao longo dos séculos seguintes e a ele atribuídos, mas nem sempre com uma análise crítica cuidadosa. O resultado foi que, por exemplo, enquanto nas Rimas originais havia 65 sonetos, na edição de 1861 de Juromenha havia 352; na edição de 1953 de Aguiar e Silva ainda eram listadas 166 peças.[41] [87] [88] Além disso, muitas edições modernizaram ou "embelezaram" o texto original, prática acentuada em particular depois da edição de 1685 de Faria e Sousa, fazendo nascer e enraizar uma tradição própria sobre esta lição adulterada que causou enormes dificuldades para o estudo crítico. Estudos mais científicos só começaram a ser empreendidos no final do século XIX, com a contribuição de Wilhelm Storck e Carolina Michaelis de Vasconcelos, que descartaram diversas composições apócrifas. No início do século XX os trabalhos continuaram com José Maria Rodrigues e Afonso Lopes Vieira, que publicaram em 1932 as Rimas numa edição que chamaram de "crítica", embora não merecesse o nome: adotou largas partes da lição de Faria e Sousa, mas os editores alegaram ter usado as edições originais, de 1595 e 1598. Por outro lado, levantaram definitivamente a questão da fraude textual que vinha se perpetuando há muito tempo e havia adulterado os poemas a ponto de se tornarem irreconhecíveis.[87] Um exemplo basta:
  • Edição de 1595: "Aqui, ó Ninfas minhas, vos pintei / Todo de amores um jardim suave; / Das aves, pedras, águas vos contei, / Sem me ficar bonina, fera ou ave.".
  • Edição de 1685: "Aqui, fremosas ninfas, vos pintei / Todo de amores um jardim suave; / De águas, de pedras, de árvores contei, / De flores, de almas, feras, de uma, outra ave." [89]
Parece ser impossível chegar-se, neste expurgo, a um resultado definitivo. Entretanto, sobrevive material autêntico em quantidade suficiente para garantir a sua posição como o melhor lírico português e o maior poeta da Renascença em Portugal.[41]


Capa da edição de 1615 do Filodemo.

Comédias

O conteúdo geral de suas obras para o palco combina, da mesma forma que nOs Lusíadas, o nacionalismo e a inspiração clássica. A sua produção neste campo resume-se a três obras, todas no género da comédia e no formato de auto: El-Rei Seleuco, Filodemo e Anfitriões. A atribuição do El-Rei Seleuco a Camões, porém, é controversa. A sua existência não era conhecida até 1654, quando apareceu publicada na primeira parte das Rimas na edição de Craesbeeck, que não deu detalhes sobre a sua origem e teve poucos cuidados na edição do texto. A peça também diverge em vários aspetos das outras duas que sobreviveram, tais como em sua extensão, bem mais curta (um ato), na existência de um prólogo em prosa, e no tratamento menos profundo e menos erudito do tema amoroso. O tema, da complicada paixão de Antíoco, filho do rei Seleuco I Nicator, por sua madrasta, a rainha Estratonice, foi tirado de um facto histórico da Antiguidade transmitido por Plutarco e repetido por Petrarca e pelo cancioneiro popular espanhol, trabalhando-o ao estilo de Gil Vicente.[90] [91]
Anfitriões, publicado em 1587, é uma adaptação do Amphitryon de Plauto, onde acentua o carácter cómico do mito de Anfitrião, destacando a omnipotência do amor, que subjuga até os imortais, também seguindo a tradição vicentina. A peça foi escrita em redondilhas menores e faz uso do bilinguismo, empregando o castelhano nas falas do personagem Sósia, um escravo, para assinalar seu baixo nível social em passagens que chegam ao grotesco, um recurso que aparece nas outras peças também. O Filodemo, composto na Índia e dedicado ao vice-rei D. Francisco Barreto, é uma comédia de moralidade em cinco atos, de acordo com a divisão clássica, sendo das três a que se manteve mais viva no interesse da crítica pela multiplicidade de experiências humanas que descreve e pela agudeza da observação psicológica. O tema versa sobre os amores de um criado, Filodemo, pela filha, Dionisa, do fidalgo em casa de quem serve, com traços autobiográficos.[41] [92] [93] Camões via a comédia como um género secundário, de interesse apenas como um divertimento de circunstância, mas conseguiu resultados significativos transferindo a comicidade dos personagens para a ação e refinando a trama, pelo que apontou um caminho para a renovação da comédia portuguesa. Entretanto, sua sugestão não foi seguida pelos cultivadores do género que o sucederam.[41]

Núcleos temáticos da obra camoniana

A conquista, o herói português e o papel da arte

Para Ivan Teixeira, embora Os Lusíadas não tenha sido escrito por encomenda do Estado, ajustou-se perfeitamente a uma necessidade cultural da empreitada expansionista. Camões acreditava no discurso dominante em Portugal na sua época, de que os portugueses tinham uma missão civilizadora a cumprir no mundo. No texto essa missão é explicitada, mas a ideologia não tolda a sua arte.[94] Ao contrário, é a Poesia que dá amplitude à História, uma amplitude que Camões imaginava ser o dever do poeta revelar aos seus contemporâneos, apoiando-se na glória do passado e do presente para subir num voo alto e perscrutar com o olho do espírito as perspetivas ainda mais grandiosas no distante horizonte do futuro, trazendo através da Arte de volta para o mundo a visão recebida, a fim de que a Arte infundisse na História um sentido novo, garantisse o significado superior dessa História na imortalidade de uma Arte que lhe faz jus, reacendendo com isso o ardor do português por conquistas ainda maiores. Como sugeriu Alcyr Pécora, é como se sem a epopeia o Bem da proeza não se pudesse cumprir integralmente. As armas apenas não bastam para a grandeza, é necessário que as artes a cantem, e se o herói não estima a arte, limita-se a sua virtude, e perde a capacidade de atingir o sublime.[70] [95] Camões, sem modéstia, colocou-se como a voz desse canto necessário à grandeza de Portugal, mas consternado acusava a ingratidão e as injustiças que sofria:


Selo português comemorando os 400 anos de seu nascimento, em 1924, onde se mostra o poeta salvando Os Lusíadas no naufrágio.
Cquote1.svg Olhai que há tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos lusitanos,
A Fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo e novos danos:
.....
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram
.....
Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assim sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!"
Cquote2.svg
Os Lusíadas, Canto VII
Porém, mesmo à sua própria custa, fica evidente que seu intento não foi apenas glorificar os portugueses, mas sim divinizá-los, seja celebrando os seus feitos positivos, seja corrigindo o seu mau comportamento.[96] [97] Os Lusíadas é, assim, não só história e apologia, não só "engenho e arte", mas uma crítica de costumes, um ditado ético, um complexo e por vezes contraditório programa político, e uma promessa de futuro melhor, um futuro que jamais foi sonhado para qualquer povo. No poema, grandes figuras da Antiguidade aparecem ofuscadas diante do que realizaram e realizariam os varões de Portugal. Os portugueses tornar-se-ão divinos não só pela fortaleza de ânimo, pela coragem física diante do inimigo, mas pelo exercício das mais altas virtudes. Para Camões os lusos estavam destinados a substituir a fama dos Antigos porque as suas proezas os excediam.[96] [98] Nem a veneração à Antiguidade que o poeta nutria foi capaz de sobrepujar a sua conceção dos portugueses como heróis sublimes:
Cquote1.svg Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta
Cquote2.svg
Os Lusíadas, Canto I
Mas aqui transparece um dos paradoxos da ideologia política de Camões, ou talvez a sua prudência e sabedoria, pois enquanto que Os Lusíadas são por um lado um louvor ao espírito de conquista, a profética condenação, pela voz do Velho do Restelo, da "vã cobiça" dos portugueses, do seu desejo pela "glória de mandar", e "desta vaidade a quem chamamos fama", provavelmente ecoa uma corrente de pensamento de sua época que era contrária às premissas da navegação, deixando "às portas o inimigo, por ires buscar outro de tão longe, por que se despovoe o Reino antigo, se enfraqueça e se vá deitando a longe". Sua aparição encerra advertindo os portugueses contra a húbris, os "altos desejos", lembrando como Faetonte, "o moço miserando", causou a sua própria ruína tentando conduzir o carro solar de seu pai, Hélio, sem possuir a capacidade de fazê-lo, sendo por isso fulminado por Zeus, e como Ícaro sucumbiu à tentação de voar até ao sol com as suas asas de cera, vendo-as derreter e precipitando-se mortalmente para a terra.[99]

O amor e a mulher

Dos temas mais presentes na lírica camoniana o do amor é central e ocorre de modo conspícuo também nOs Lusíadas. Na sua conceção incorporou elementos da doutrina clássica, do amor cortês e da religião cristã, concorrendo todos para incentivar o amor espiritual e não o carnal. Para os clássicos, especialmente na escola platónica, o amor espiritual é o mais elevado, o único digno dos sábios, e esta espécie de afeto incorpóreo acabou por ser conhecida como amor platónico. Na religião cristã da sua época o corpo era visto como fonte de um dos pecados capitais, a luxúria, e por isso sempre foi encarado com desconfiança quando não desprezo; conquanto fosse aprovado o amor nas suas versões espirituais, o amor sexual era permitido primariamente para a procriação, ficando o prazer em plano secundário. Da poesia trovadoresca herdou a tradição do amor cortês, que é ele mesmo uma derivação platónica que coloca a dama num patamar ideal, jamais atingível, e exige do cavaleiro uma ética imaculada e uma total subserviência em relação à amada. Nesse contexto, o amor camoniano, como expresso nas suas obras, é, por regra, um amor idealizado que não chega a vias de facto e se expressa no plano da abstração e da arte. Contudo, é um amor preso no dualismo, é um amor que, se por um lado ilumina a mente, gera a poesia e enobrece o espírito, se o aproxima do divino, do belo, do eterno, do puro e do maravilhoso, é também um amor que tortura e escraviza pela impossibilidade de ignorar o desejo de posse da amada e as urgências da carne. Queixou-se o poeta inúmeras vezes, amargamente, da tirania desses amores impossíveis, chorou as distâncias, as despedidas, a saudade, a falta de reciprocidade, e a impalpabilidade dos nobres frutos que produz.[100] [101] Tome-se como exemplo um soneto muito conhecido:
Cquote1.svg Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?
Cquote2.svg
Rimas
Todos os paradoxos criados pela idealização amorosa são enfatizados pela própria estrutura poética, cheia de antíteses, metáforas, silogismos, oposições e inversões, que na análise de Cavalcante
"... configuram um jogo elegante e sonoro de linguagem enquanto o poema desenvolve os paradoxos para expressar o sentido tanto universal quanto contraditório do amor. Diante do sentimento, o homem torna-se frágil, a linguagem é insuficiente, a palavra, ilógica e sem razão. Ao expressar o "eu" universal, Camões joga com escrita/escritura, fazendo desta última o mais puro "estranhamento" e novidade, ainda que pudesse estar inspirado nos modelos clássicos".[102]
Se a consumação terrena é impossível, pode ser necessária a própria morte dos amantes, para que se possam unir no Paraíso. Desta forma, o tema da morte acompanha o do amor em muito da poesia de Camões, seja de forma explícita ou implícita.[101] Nem sempre, porém, o amor lhe foi um drama, e o poeta foi capaz de expressar o seu lado puramente jubiloso e tranquilo, tocando, como observou Joaquim Nabuco, o cerne de simplicidade do sentimento.[103] Como exemplo, deu o seguinte soneto:


Página da edição de 1616 das Rimas, com o início do poema Cabellos d'ouro...
Cquote1.svg Transforma-se o amador na cousa amada
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada
Que mais deseja o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.

Mas esta linda e pura Semidea
Que como o acidente em seu sujeito,
Assi com a alma minha se conforma;

Está no pensamento como ideia;
E o vivo, o puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
Cquote2.svg
Rimas
De qualquer forma, apesar das frustrações e do sofrimento recorrente, para Camões o amor valia a pena de ser vivido: "As lágrimas inflamam o meu amor e sinto-me contente de mim porque vos amei",[103] e em suas descrições da amada abundam imagens pictóricas de grande delicadeza, colocando a mulher como elemento central numa paisagem natural harmoniosa, especialmente na sua lírica derivada mais diretamente de Petrarca e da tradição pastoral portuguesa do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, que evocam o bucolismo clássico. A pintura com palavras traz à frente tanto as belezas naturais e feminis, como é capaz de delinear um perfil psicológico através da descrição dos gestos, das posturas e dos movimentos corpóreos da mulher, como transparece no trecho: "O rosto sobre sua mão / Os olhos no chão pregados / Que do chorar já cansados / Algum descanso lhe dão".[104]
A dualidade amorosa expressa na lírica camoniana corresponde a duas conceções de mulher: a primeira é de uma criatura angelical, objeto de culto, um ser quase divino, intocável e distante. A sua descrição enfatiza as correspondências entre a sua beleza física e a sua perfeição moral e espiritual. Os seus cabelos são ouro, a sua boca é uma rosa, os seus dentes, pérolas e a sua simples proximidade e contemplação são dádivas celestes. Mas o amor vivido em espírito dá lugar a sentimentos totalizantes que acabam por envolver também a manifestação erótica e hedonista, fazendo um apelo ao desfrute imediato, antes que o tempo consuma os corpos na decrepitude, invocando então a outra mulher, a carnal. Se a união física não acontece, nasce o sofrimento e com ele a alienação do mundo, o desconcerto e a "poesia do desafogo", como a chamou Soares. Na lírica de Camões o fulcro polarizador do prazer e da dor é a mulher e em torno da figura feminina gira todo o pathos amoroso, ela é o ponto de partida e o ponto de chegada de todo o discurso poético.[105] Mesmo sem jamais ter casado e mesmo adorando à distância suas musas, Camões com toda probabilidade experimentou o amor carnal. NOs Lusíadas, transcendendo a tradição da lírica amorosa petrarquista, encontram-se as passagens relativas ao amor mais carregadas de erotismo da obra camoniana, em várias descrições vívidas, livres, apaixonadas e honestas do encontro sensual e da mulher, não raro banhadas de intenso lirismo. As passagens mais marcantes nesse sentido são o retrato de Vénus e sua subida ao Olimpo, onde seduz Júpiter para que favoreça os portugueses, no Canto II, e as cenas na Ilha dos Amores, nos Cantos IX e X.[100] [106] Segue um trecho do retrato da deusa:
Cquote1.svg Os crespos fios d'ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava, e não se via;
Da alva petrina flamas lhe saíam,
Onde o Menino as almas acendia;
Pelas lisas colunas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.

C'um delgado sendal as partes cobre,
De quem vergonha é natural reparo,
Porém nem tudo esconde, nem descobre,
O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
Mas, para que o desejo acenda o dobre,
Lhe põe diante aquele objeto raro.
Já se sentem no Céu, por toda a parte,
Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.
Cquote2.svg
Os Lusíadas, Canto II
Para Cidália dos Santos a eficiência da evocação erótica reside na habilidosa criação de um percurso voyeurístico que alterna a exibição e o ocultamento do corpo da deusa, numa escala de intensidade progressiva e com descrições bastante ousadas, ainda que faça uso de uma metáfora para assinalar o foco do desejo sexual, os lábios de sua vulva: "os roxos lírios". Na descrição da Ilha dos Amores a atmosfera erótica é consistentemente mantida através de uma longa passagem, também numa sequência crescente de intensidade, descrevendo desde a criação da ilha, a chegada das ninfas e os preparativos para o desfrute dos portugueses, até ao momento em que os marinheiros iniciam a "caça" às ninfas por entre a floresta e finalmente se unem a elas num momento de prazer libertador e generalizado que compensava todos os trabalhos antes sofridos:[106]


Tétis preside ao banquete das ninfas e dos portugueses na Ilha dos Amores, gravura anónima de 1880.
Cquote1.svg Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo
Cquote2.svg
Os Lusíadas, Canto IX
É de notar que a consumação sexual coletiva que ocorre nas Ilha dos Amores, embora com todos os atributos da carnalidade e descrita com detalhes nitidamente eróticos, está distante do carácter de uma orgia desenfreada. As ninfas são deusas, e o amor que oferecem não é vulgar. Na tradição clássica eram entidades que iluminavam o intelecto e presidiam à geração e à regeneração e na epopeia elas aparecem como potenciais matrizes de uma raça sublimada, a "progénie forte e bela" que Camões ansiava ver nascer em Portugal. A própria Ilha dos Amores incorpora vários atributos de um paraíso terreno, onde o vínculo entre homem e mulher é pleno e harmonioso, ao mesmo tempo carnal e espiritual. Na visão de Borges, "a qualidade paradisíaca da Ilha reside exatamente em nela se abolir a divisão e oposição entre corpo e espírito, masculino e feminino, humano e divino, mortal e imortal, atividade e fim, ser e consciência".[107]
À parte as figuras femininas mitológicas, que pertencem ao plano mítico e estão além da História e livres do pecado original, a visão da mulher nOs Lusíadas revela a opinião geral de seu tempo: as mulheres são tanto mais exaltadas quanto mais se aproximam do comportamento de Maria, mãe de Jesus, modelo máximo de perfeição feminina cristã. Dentro desse padrão, cabiam-lhes as funções de filha, mãe, esposa, dona de casa e devota, fiéis, pacatas, submissas e prontas a renunciar à sua própria vida para servir ao marido, à família e à pátria. Nessa linha, as mulheres do Restelo, Leonor Sepúlveda e Dona Filipa são as mais louvadas, seguindo-se Inês de Castro, que, mesmo sendo uma amante, acaba defendida por conta da sua fidelidade ao príncipe, do seu "puro amor", da sua delicadeza, da sua preocupação maternal com os filhos, do seu sofrimento, expiação e "morte crua". Entretanto, Teresa e, ainda mais, Leonor Teles, são severamente condenadas por causa dos seus comportamentos discrepantes do padrão cristão, pondo em perigo a nação.[108]

O desengano

Outro tema significativo que ocorre na sua poesia é o da transitoriedade das coisas do mundo, também trabalhada através dos contrastes dialéticos e outros jogos de linguagem. Faz Camões na sua obra uma elaborada meditação sobre a condição humana, a partir da sua trabalhosa experiência pessoal, que vê refletida e multiplicada no mundo. Daí que desenvolveu um senso de fatalismo: o mundo é efémero, constata o poeta, o homem é fraco e a sua vontade é precária e impotente contra as forças superiores do destino. É o mar que traga de inopino a donzela amada, é a guerra e a doença que destroem as vidas ainda em botão, é a distância que separa os amantes, é o tempo que corrói as esperanças, é a experiência que contradiz o sonho belo, tudo passa e o imprevisto surpreende o homem a cada passo, anulando qualquer possibilidade de se manter a perspetiva renascentista de harmonia entre o homem e o cosmos - disso vem o desengano, a desilusão, um conceito comum neste domínio de sua obra, que o faz experimentar a amargura da morte ainda em vida.[109] [110] [111] A sua mente vê-se perdida num mar de pensamentos desencontrados, chega a dizer que a vida não tem razão de ser e que tentar descobrir o seu sentido é tão inútil como perigoso, pois o pensar sobre as dificuldades da vida somente aprofunda a dor de viver e não tem o poder de salvá-lo da realidade miserável do homem.[111] Composta após o naufrágio no Oriente, a célebre redondilha Sobre os rios que vão (também conhecida como Sôbolos rios que vão), ilustra este aspeto da obra camoniana, da qual seguem três estrofes:
1.
"Sobre os rios que vão
por Babilonia m'achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião,
e quanto nela passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
. . . 2.
"Ali lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes,
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
c'o rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.
. . . 3.
"E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos,
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem,
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura".

A religião

Quanto à religião, Os Lusíadas é uma defesa intransigente do Catolicismo e um pesado ataque àqueles que não o abraçam, criticando os protestantes e principalmente os "infiéis" muçulmanos, descritos quase invariavelmente como ardilosos, enganadores e desprezíveis. Critica até países católicos como a França, por não defender com vigor a religião contra o avanço protestante, e a própria Itália, sede do papado, por considerá-la caída em vícios. Mesmo a constante presença dos deuses pagãos no poema não contradiz a sua ortodoxia, pois na época isso era considerado uma natural licença poética e assim foi entendida pelos censores eclesiásticos.[112] [113] [114] O tema da religião aparece também na sua produção lírica, como ilustra o seguinte soneto:
Cquote1.svg Desce do Céu imenso, Deus benino,
Para encarnar na Virgem soberana.
"Porque desce divino em cousa humana?"
"Para subir o humano a ser Divino".

"Pois como vem tão pobre e tão minino,
Rendendo-se ao poder da mão tirana?"
"Porque vem receber morte inumana
Para pagar de Adão o desatino".

"Pois como? Adão e Eva o fruto comem
Que por seu próprio Deus lhe foi vedado?"
"Si, por que o próprio ser de deuses tomem".

"E por essa razão foi humanado?"
"Si. Porque foi com causa decretado,
Se o homem quis ser deus, que Deus seja homem".
Cquote2.svg
Rimas
Aflito por insucessos amorosos, pela miséria da condição humana, chegou a amaldiçoar o dia em que nasceu em um poema carregado de pessimismo e desalento. Diante disso, para Camões a fé foi a resposta final para os "desconcertos do mundo": o derradeiro consolo está em Deus. Mesmo que a injustiça prevaleça em vida, no Céu o homem terá recompensa. Pôde ainda expressar a sua resignação e esperança dizendo que o que parece "injusto aos homens e profundo, para Deus é justo e evidente", e os que aceitam o sofrimento com paciência não incorrerão em outros castigos.[115]

Camões e a linguagem


Camões lendo Os Lusíadas, por António Carneiro.
Em que pese Camões ser o grande modelo da língua portuguesa moderna, e da sua obra já ter sido extensamente estudada sob os pontos de vista estético, histórico, cultural e simbólico, de acordo com Verdelho relativamente pouco estudo tem sido feito sobre os seus aspetos filológicos, nos domínios da sintaxe, semântica, morfologia, fonética e ortografia, ainda mais que o poeta teve um papel importante para fixar e dar autoridade a uma tradição literária em português, quando na sua época o latim era uma língua altamente prestigiada para a criação literária e para a transmissão de conhecimento e cultura, e o espanhol, que sempre exerceu uma pressão, logo após a morte do poeta se tornou uma ameaça séria à sobrevivência do idioma lusitano, por conta da união ibérica. Como pensa Hernâni Cidade, isso indica que Camões estava ciente da sua conjuntura linguística e fez uma opção deliberada pelo português, e na sua produção transparece um forte interesse linguístico, sentindo-se "uma permanente reflexão sobre a língua, uma aguda sensibilidade aos nomes das coisas, às palavras e à maneira de as usar... Em Os Lusíadas, por exemplo, várias vezes se dá notícia da estranheza perante o encontro de novas línguas".[116]
Na escassa correspondência autógrafa que sobreviveu esse interesse está declarado explicitamente. Na Carta III ele narrou a um amigo o hábito das alcoviteiras de Lisboa, que traziam "sempre aparadas as palavras para falar com quem se preze disso, cousa que eu tenho por grande trabalho". Notou o desprezo de que o falar rústico dos camponeses era objeto e deu uma pitoresca descrição do poliglotismo que encontrou vigorando em um prostíbulo: "Deste dilúvio houveram algumas damas medo e edificaram uma torre de Babilónia, onde se acolheram; e vos certifico que são já as línguas tantas que cedo cairá, porque ali vereis mouros, judeus, castelhanos, leoneses, frades, clérigos, solteiros, moços e velhos (sic)". Na Carta II o poeta descreveu a linguagem das moças da Índia, que de tão rude lhe esfriava o ânimo romântico: "Respondem-vos uma linguagem meada de ervilhaca, que trava na garganta do entendimento, a qual vos lança água na fervura da mor quentura do mundo".[117]
O seu linguajar literário foi sempre reconhecido como erudito; Faria e Sousa já dissera que Camões não escrevera para ignorantes. A influência do seu modelo repercutiu profundamente sobre a evolução da língua portuguesa pelos séculos seguintes, e durante muito tempo foi um padrão ensinado nas escolas e academias, mas Verdelho considera-o mais próximo da fala de comunicação quotidiana moderna em Portugal do que o português usado, por exemplo, pelos escritores lusos do Barroco ou mesmo por alguns autores contemporâneos. Para o pesquisador a linguagem de Camões mantém uma notável proximidade entre os códigos linguísticos e os códigos poéticos, dando-lhe uma transparência e legibilidade únicas, sem que isso implique um ofuscamento das suas fontes clássicas, italianas e espanholas, ou uma redução na sua complexidade e refinamento, prestando-se a elaboradas análises. Cabe notar que se deve a Camões a introdução de uma quantidade de latinismos na linguagem corrente, tais como aéreo, áureo, celeuma, diligente, diáfano, excelente, aquático, fabuloso, pálido, radiante, recíproco, hemisfério e muitos outros, prática que ampliou significativamente o léxico do seu tempo.[118] Baião o chamou de um revolucionário em relação à língua portuguesa culta de sua geração,[119] e Paiva analisou algumas das inovações linguísticas trazidas por Camões dizendo:
Os Lusíadas constituem um testemunho de primeira importância sobre uma mudança (linguística) em curso na época. Camões não se revela apenas como um homem do seu tempo cuja linguagem reflecte a variedade padrão, sobre a qual o corpus metalinguístico quinhentista fornece uma informação específica ao nível da consciência, da práxis escritural e da dimensão normativa. O aumento da amplitude da variação que o texto acusa não é só inerente à diversificação dos conteúdos, à pluralidade de vozes e à policromia de cambiantes. Camões ... identifica a tendência que prevalecerá no futuro, e extrai, daquilo que intui na língua, consequências detectáveis no plano da criação estética. [120]

Difusão e influência


Camões como poeta laureado, por François Gérard.
De acordo com Monteiro, dos grandes poetas épicos da tradição ocidental Camões permanece o menos conhecido fora de sua terra natal e a sua obra-prima, Os Lusíadas, é o menos conhecido dos grandes poemas dessa tradição. Entretanto, desde o tempo em que viveu e ao longo dos séculos Camões foi louvado por diversos luminares não-lusófonos da cultura ocidental. Torquato Tasso, que dizia que Camões era o único rival que temia,[121] dedicou-lhe um soneto, Baltasar Gracián elogiou a sua agudeza e engenho, no que foi seguido por Lope de Vega, Cervantes – que via Camões como o "cantor da civilização ocidental"[122] – e Góngora. Foi uma influência sobre o trabalho de John Milton e vários outros poetas ingleses, Goethe reconheceu a sua eminência, Sir Richard Burton considerava-o um mestre,[123] Friedrich Schlegel dizia-o o expoente máximo da criação na poesia épica,[124] opinando que a "perfeição" [Vollendung] da poesia Portuguesa era evidente nos seus "belos poemas",[125] e Humboldt o tinha como um admirável pintor da natureza.[126] [127] August-Wilhelm Schlegel escreveu que Camões, por si só, vale uma literatura inteira.[128]
A fama de Camões iniciou a expandir-se através de Espanha, onde teve vários admiradores desde o século XVI, aparecendo duas traduções dOs Lusíadas em 1580, ano da morte do poeta, impressas a mando de Filipe II de Espanha, então rei também de Portugal. No título da edição de Luis Gómez de Tápia, Camões já é citado como "famoso", e na de Benito Caldera ele foi comparado a Virgílio, e quase digno de igualar Homero.[129] Além disso, o rei concedeu-lhe o título honorífico de "Príncipe dos poetas de Espanha", que foi impresso numa das edições. Na leitura de Bergel, Filipe estava perfeitamente a par das vantagens de usar, para os seus próprios propósitos, uma cultura já estabelecida, em vez de suprimi-la. Sendo filho de uma princesa portuguesa, não tinha interesse em anular a identidade lusa nem as suas conquistas culturais, e foi-lhe vantajoso assimilar o poeta para dentro da órbita espanhola, tanto para assegurar a sua legitimidade como soberano das coroas unidas como para engrandecer o brilho da cultura espanhola.[85]
Logo a sua fama alcançou a Itália; Tasso chamou-o "culto e bom" e Os Lusíadas foi traduzido duas vezes em 1658, por Oliveira e Paggi.[129] Mais tarde, associado a Tasso, tornou-se um paradigma importante no Romantismo italiano.[130] A esta altura em Portugal já se formara um corpo de exegetas e comentadores, dando ao estudo de Camões grande profundidade. Em 1655 Os Lusíadas chega à Inglaterra na tradução de Fanshawe, mas só viria a ganhar notoriedade aí cerca de um século depois, com a publicação da versão poética de William Julius Mickle em 1776 que, embora bem sucedida, não impediu o surgimento de mais uma dezena de traduções inglesas até fins do século XIX.[131] [132] Chegou a França no início do século XVIII, quando Castera publicou uma tradução do épico e no prefácio não poupou elogios à sua arte. Voltaire criticou certos aspetos da obra, nomeadamente a sua falta de unidade na ação e mistura de mitologia cristã e pagã, mas também admirou as novidades que ela introduziu em relação às outras epopeias,[133] contribuindo poderosamente para a sua difusão. Montesquieu afirmou que o poema de Camões tinha algo do charme da Odisseia e da magnificência da Eneida.[134] Entre 1735 e 1874 surgiram nada menos do que vinte traduções francesas do livro, sem contar inúmeras segundas edições e paráfrases de alguns dos episódios mais marcantes. Em 1777 Pieterszoon traduziu Os Lusíadas para o holandês e no século XIX surgiram mais cinco outras, parciais.[129] [135]
Na Polónia Os Lusíadas foi traduzido em 1790 por Przybylski e, desde então, tornou-se intimamente integrado na tradição literária polonesa, tanto que, pela sua erudição, no século XIX foi um elemento indispensável na educação literária local e foi intensivamente analisado pelos críticos polacos que o viam como o melhor épico da Europa moderna. Ao mesmo tempo, a pessoa de Camões, com a sua vida atribulada e seu "génio incompreendido", tornou-se um ícone exemplar para a geração romântica e nacionalista polaca que se apropriou da sua figura, como disse Kalewska, quase como se fosse um polaco disfarçado, exercendo grande impacto na formação do nacionalismo polaco e sobre sucessivas gerações de escritores do país.[136] Em 1782 apareceu a primeira tradução alemã, ainda que parcial. A primeira versão integral veio à luz entre 1806 e 1807, trabalho de Herse, e no final da centúria Storck traduziu as suas obras completas e ofereceu um estudo monumental: Vida e Obra de Camões, traduzido para o português por Michaëlis.[129] [135]
Camões foi uma das mais fortes influências sobre a formação e evolução da literatura brasileira, uma influência que começou a ser efetiva a partir do período barroco, no século XVII, como se constata pelas semelhanças entre Os Lusíadas e o primeiro épico brasileiro, a Prosopopeia, de Bento Teixeira, de 1601. As poesias de Gregório de Matos também foram muitas vezes decalcadas do modelo formal camoniano, embora o seu conteúdo e tom fossem bem outros. Mas Gregório usou paródias, colagens, citações diretas e até cópias literais de trechos de vários poemas de Camões para construir os seus. Com Gregório iniciou-se um processo de diferenciação da literatura brasileira em relação à portuguesa, mas não pôde evadir-se de, ao mesmo tempo, preservar muito da tradição camoniana. Durante o Arcadismo continuou a prática da rutura paralela à recriação e a influência dOs Lusíadas aparece nas obras O Uraguai, de Basílio da Gama, e em Caramuru, de frei Santa Rita Durão, dos dois o mais próximo da fonte original, tanto em forma como em visão de mundo. A lírica de Cláudio Manuel da Costa e Tomás António Gonzaga também é grandemente devedora de Camões.[137] Maria Martins Dias encontrou influência camoniana também sobre a literatura brasileira contemporânea, citando os casos de Carlos Drummond de Andrade e Haroldo de Campos.[138]


Camões em pintura de José Malhoa.
Durante o Romantismo, não só na Polónia, como foi dito, mas em vários países da Europa, Camões foi uma figura simbólica de grande destaque, popularizando-se versões da sua biografia que o retratavam como uma espécie de génio-mártir, com uma vida dificultosa e penalizado ainda mais pela ingratidão de uma pátria que não soubera reconhecer a fama que ele lhe trouxera, sublinhando-se o facto de a sua morte ocorrer no ano em que o país perdia a independência, unindo-se assim o triste destino de ambos.[139] Na interpretação de Chaves, a recuperação romântica de Camões constituiu um mito com base tanto na sua biografia como na sua lenda, e cuja obra fundia elementos do belo imaginoso da tradição italiana com o sublime patriótico da tradição clássica, veiculando a partir do início do século XIX "uma mensagem liberal de grande dimensão humana... um recriador e um instrumento de uma importante tradição literária antiga, um herói nacional de imutável destino em que no seu mítico percurso existencial tal como na sua obra se projetaram sonhos, esperanças, sentimentos e paixões humanas".[140]
Durante longo tempo, a maior parte da sua fama repousou apenas sobre Os Lusíadas mas, nas últimas décadas, a sua obra lírica vem recuperando a alta estima que lhe foi dedicada até ao século XVII. Curiosamente, foi na Inglaterra e nos Estados Unidos que permaneceu mais viva uma tradição, que remonta ao século XVII, de equilibrar o seu prestígio entre a épica e a lírica, incluindo entre os seus apreciadores, além dos citados Milton e Burton, também William Wordsworth, Lord Byron, Edgar Allan Poe, Henry Longfellow, Herman Melville, Emily Dickinson e especialmente Elizabeth Browning, que foi uma grande divulgadora da sua vida e obra. Foi produzida ainda muita literatura crítica sobre Camões nesses países, bem como várias traduções.[141]
O grande interesse pela vida e obra de Camões já abriu espaço para o estabelecimento da Camonologia como uma disciplina autónoma nas universidades, oferecida desde 1924 na Faculdade de Letras de Lisboa e desde 1963 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.[142] [143] Pelo Protocolo Adicional ao Acordo Cultural entre o Governo da República Portuguesa e o Governo da República Federativa do Brasil, em 1986 foi instituído o Prémio Camões, o maior galardão literário dedicado à literatura em língua portuguesa, concedido àqueles autores que tenham contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua. Já receberam o prémio, entre outros, Miguel Torga, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Lygia Fagundes Telles, António Lobo Antunes e João Ubaldo Ribeiro.[144] Nos dias de hoje, estudado e traduzido para todas as principais línguas do ocidente e algumas orientais, é praticamente um consenso chamá-lo de um dos maiores literatos do ocidente, ombreando com Virgílio, Shakespeare, Dante, Cervantes e outros do mesmo quilate e há quem o tome como um dos maiores da história da humanidade.[135] [139] [145] Reunida em Macau em 1999, a Organização Mundial de Poetas homenageou o espírito universalista de Luís de Camões, celebrando-o como um autor que ultrapassou barreiras temporais e nacionais.[139]

Críticas

Apesar de o mérito artístico de Camões ser largamente reconhecido, a sua obra não ficou imune a críticas. O bispo de Viseu, D. Francisco Lobo, acusou-o de jamais haver amado verdadeiramente e, por isso, ter falseado o amor através do embelezamento poético. Para o crítico, o amor "não se declara com requebros tão ponderados, e por tão afetado estilo, como ele faz tantas vezes, ou para melhor dizer, como faz em todos esses lugares em que mais pretende engrandecer-se".[146] José Agostinho de Macedo, na sua obra em dois volumes, Censura das Lusiadas, examinou o poema e expôs o que considerava serem os seus vários defeitos, nomeadamente a nível de plano e acção, mas também erros de métrica e gramática, chegando a afirmar que "Tiradas do poema as oitavas inúteis, ficava reduzido a cousa nenhuma." [147] A seguinte passagem exemplifica bem o estilo da sua crítica: referindo-se à Oitava 14.ª («Nem deixarão meus versos esquecidos / Aqueles que nos Reinos da Aurora / Se fizeram por armas tão subidos...»), José Agostinho escreve: "Nesta Oit. 14.ª começa o vergonhoso bordão do——que se repete com enjoo a cada página até ao fim do Poema, coisa para que os da seita Camoniana não tem sabido olhar [...] pressupondo sem exame a impecabilidade em um homem." [148] Robert Southey comparou a Ilha dos Amores de Camões a um "bordel flutuante", acrescentando que "não há beleza que possa desculpar a licenciosidade." [149] Hegel, embora elogiando várias qualidades dOs Lusíadas, criticou a incongruência entre o tema nacionalista e o uso de modelos formais clássicos e italianos, além de apontar uma presença excessiva da voz pessoal do poeta, em várias passagens em que usa a primeira pessoa do singular para tecer uma variedade de comentários, interrompendo o fluxo da ação épica.[150] Cesário Verde considerou o "desconcerto" camoniano, um modo errático de ser sujeito no mundo e de estar sujeito no mundo, carregando as penas do mundo sobre os ombros, como um desejo absurdo de sofrer.[151] Sérgio Buarque de Holanda disse que as cores épicas com que Camões pintou os feitos lusitanos não correspondem tanto a "uma aspiração generosa e ascendente", mas espelham antes uma retrospeção melancólica da glória extinta que mais desfigurou do que fixou a verdadeira fisionomia moral dos agentes da expansão marítima.[152]
António José Saraiva, alinhado às teses do marxismo, lamentou a falta de substância dos seus personagens, que para ele são mais estereótipos do que pessoas reais, não são heróis de carne e osso, e carecem de robustez e vigor. Também criticou que a ação fosse levada adiante sempre por esses heróis, sem que o povo português tivesse qualquer participação. Como disse, "o peito ilustre lusitano não passa de uma abstração incapaz de conjuntivar carnalmente as proezas sucessivas dos guerreiros", pois falta-lhes caracterização externa e, ao autor, uma visão histórica ampla, reduzindo a História aos feitos de armas. Completou dizendo que Camões não se distanciou suficientemente do ideal cavaleiresco para poder criticá-lo, "o que o coloca na situação de aparecer um pouco como um Quixote que faz literatura como o outro investia (contra) os gigantes", atestando o seu desajuste em relação à sua época e caindo em contradições ideológicas.[153] Na mesma linha de ideias, Helgerson viu Os Lusíadas como uma reafirmação dos valores da aristocracia, atribuindo os méritos da nação a uma só classe social, e considerou o tratamento épico inconsistente com os objetivos gerais da exploração marítima portuguesa, que eram em grande parte puramente comerciais, gerando contradições internas no terreno ideológico e distorcendo os factos históricos.[154]
Vários outros autores têm considerado Os Lusíadas como uma peça de propaganda e uma ilustração do desenvolvimento do colonialismo português, mostrando como os encontros interculturais eram resolvidos excessivas vezes de forma agressiva e predatória, e produzindo um discurso que glorificava os portugueses como divinamente escolhidos e fomentava a violência do imperialismo religioso da Contra-Reforma de que eles eram instrumento ativo, como fica patente na reiterada condenação dos mouros pela voz de Camões. Dizem esses autores que a mitologia de supremacia consagrada por Camões, ao ser usada pelo Estado português, teve consequências funestas para todas as colónias lusas, não somente naquela época, mas de longo prazo, que são visíveis ainda em tempos recentes, em particular na opressiva política oficial para as colónias africanas que vigorou durante a ditadura de Salazar no século XX. Sintetizando essas visões, Anthony Soares disse que em Os Lusíadas a violência do discurso "pavimentou o caminho para a violência física sobre a qual se criou a identidade do império colonial português", problematizando também o futuro da identidade nacional portuguesa moderna.[155] [156] [157] Naturalmente, a literatura autóctone das colónias do Império Português não pôde em seu início deixar de alinhar-se a esse ideário, mas, como assinalou Eduardo Romo, a produção pós-colonial tem sido marcada pelo esforço de se diferenciar nitidamente em relação ao modelo cultural da metrópole e narrar as lutas pela independência, em busca de uma identidade própria para estas novas nações.[158] Ainda dentro da esfera dos discursos hegemónicos, a obra de Camões foi vista por críticos feministas como um elemento de perpetuação de ideologias falocráticas.[159] O autor sul-africano Stephen Gray alega que a figura de Adamastor, o titã que nOs Lusíadas é a personificação do Cabo das Tormentas, está na raiz de uma mitologia racista sobre a qual assenta a supremacia branca na África do Sul.[160] Por outro lado, Camões foi defendido desses ataques por vários escritores, que dizem que o significado do seu épico pode variar muito de acordo com a interpretação pessoal, que o autor na mesma obra expressou as suas dúvidas sobre a conquista e que Camões não pode ser culpado por ter sido erigido em símbolo da sua pátria e usado como instrumento político.[161] [162]

Símbolo nacional português


Monumento ao poeta na Praça Luís de Camões, no Bairro Alto, em Lisboa.

Monumento ao poeta no Jardim Luís de Camões, Leiria.
A identificação de Camões e da sua obra como símbolos da nação portuguesa parece datar, como acredita Vanda Anastácio, do início da monarquia dual de Filipe II de Espanha, pois aparentemente o monarca entendeu que seria de interesse prestigiá-los como parte de sua política para assegurar a legitimidade do seu reinado sobre os portugueses, o que justifica a sua ordem de imprimir duas traduções em castelhano de Os Lusíadas em 1580, pelas universidades de Salamanca e Alcalá de Henares, e sem as submeter à censura eclesiástica.[85] [163] Mas Camões tornou-se especialmente importante em Portugal no século XIX, quando, conforme afirmaram Lourenço, Freeland, Souza e outros autores, Os Lusíadas sofreu um processo de releitura e mitificação por alguns dos expoentes do Romantismo local, como Almeida Garrett, Antero de Quental e Oliveira Martins, que o colocaram como um símbolo da história e do destino que estaria reservado ao país. Até mesmo a biografia do poeta foi readaptada e romantizada para servir aos seus interesses, introduzindo-se uma nota messiânica a seu respeito no imaginário popular da época. Os objetivos principais desse movimento eram compensar o saudosismo dos tempos de glória e a perceção então prevalente de Portugal como uma periferia pouco significativa da Europa, e dar à sua história um sentido mais positivo, abrindo-lhe novas perspetivas de futuro.[164] [165] [166]
Essa tendência atingiu um ponto alto por ocasião das comemorações do tricentenário da morte do poeta, realizadas entre 8 e 10 de junho de 1880. Num momento de crise por que Portugal passava, quando se questionava a legitimidade da monarquia e se ouviam fortes reivindicações pela democracia, a figura do poeta tornou-se um foco para a causa política e um motivo para reafirmações do valor português contra um pano de fundo ideológico positivista, agregando diferentes segmentos da sociedade, como foi sintetizado nas notícias dos jornais: "O Centenário de Camões neste momento histórico, e nesta crise dos espíritos tem a significação de uma revivescência nacional"... "É sublime o acordo entre as conclusões científicas das mais elevadas inteligências da Europa e a intuição da alma popular que encontram em Camões o representante duma literatura inteira e a síntese da nacionalidade"... "Todas as forças vivas da nação se aliavam nesse grande preito à memória do homem cuja alma foi a síntese grandiosa da alma portuguesa". Sugestivamente, o comité organizador das festividades intitulou-se "Comité de Salvação Pública". Diversos estudos críticos vieram a luz no momento, incluindo estrangeiros, e a festa nas ruas atraiu enorme público.[167] [168] O tricentenário foi comemorado no Brasil com entusiasmo semelhante, com publicação de estudos e cerimónias em muitas cidades, transbordando os círculos intelectuais, e tornou-se um pretexto para um estreitamento das relações entre os dois países.[168] Em vários outros países a data foi noticiada e comemorada.[139]
Durante o Estado Novo essa ideologia não foi muito modificada na essência, mas sim na forma de interpretação. O vate e a sua obra-prima tornaram-se instrumentos propagandísticos de consolidação do Estado e passou-se a divulgar então uma ideia de que Camões era não apenas um símbolo nacional, mas um símbolo cujo significado era tão particular à sensibilidade portuguesa que só poderia ser compreendido pelos próprios portugueses. A ironia é que esta abordagem gerou efeitos contrários imprevistos, e aquele mesmo estado, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, queixava-se de que a comunidade internacional não entendia Portugal.[166]
Três anos depois da Revolução de abril de 1974 Camões foi associado publicamente às comunidades portuguesas de além-mar, tornando-se a data de sua morte o "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas", no intuito de dissolver a imagem de Portugal como um país colonizador e se criar um novo senso de identidade nacional que englobasse os muitos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo. Essa nova ideologia foi reafirmada nos anos 80 com a publicação de Camões e a Identidade Nacional, um volume elaborado pela Imprensa Nacional contendo declarações de importantes figuras públicas da nação. A sua condição de símbolo nacional permanece nos dias de hoje, e outra evidência do seu poder como tal foi a transformação, em 1992, do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa em Instituto Camões, que passou da administração do Ministério da Educação para a do Ministério dos Negócios Estrangeiros.[169]
Tendo influenciado a evolução da literatura portuguesa desde o século XVII, Camões continua a ser uma referência para muitos escritores contemporâneos, tanto em termos de forma e conteúdo como se tornando ele mesmo um personagem em outras produções literárias e dramatúrgicas.[53] Vasco Graça Moura considera-o o maior vulto de toda a história portuguesa, por ter sido o fundador da língua portuguesa moderna, por ter como ninguém compreendido as grandes tendências do seu tempo, e por ter conseguido dar forma, através da palavra, a um senso de identidade nacional e erguer-se à condição de símbolo dessa identidade, transmitindo uma mensagem que se mantém viva e atual.[170] E como afirmou Iolanda Ramos,
"O nome do poeta surge como um símbolo da união do mundo lusófono. Nesta medida, ganha lugar de destaque a acção exercida pelo Instituto Camões que, em Portugal tal como no estrangeiro, mantém vivo o nome desta figura ímpar e sublinha o elo que a une a outras personalidades nossas contemporâneas. O simples vínculo do nome de Camões a autores consagrados da língua portuguesa, como Miguel Torga, Vergílio Ferreira, José Saramago, Eduardo Lourenço e Sophia de Mello Breyner Andresen incentiva, por sua vez, os mais curiosos a informarem-se sobre o poeta que dá nome ao Prémio (Prémio Camões) outorgado todos os anos desde 1989".[139]

Notas e referências

Notas

Não há certeza absoluta quanto ao ano da morte do poeta. D. Gonçalo Coutinho em 1594 pôs-lhe na sepultura da Igreja de Santa Ana uma lousa com a seguinte inscrição: «Aqui jaz Luiz de Camões, príncipe dos poetas do seu tempo, morreu no ano de 1579, esta campa lhe mandou pôr D. Gonçalo Coutinho, na qual se não enterrará ninguém». O documento relativo à tença de Camões (Livro III das Emendas, fl. 137 v., Torre do Tombo), reclamada a título de sobrevivência pela mãe dele, Ana de Sá, refere que o poeta teria morrido em 10 de Junho de 1580... De qualquer dos modos, se 10 de Junho se refere ao calendário juliano então em vigor, no calendário gregoriano atual corresponde a 20 de junho, dia em que se deveria celebrar o aniversário da morte do poeta e não o 10 de Junho... (Mário Saa, As Memórias Astrológicas de Camões, Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1940, pgs. 313-317)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

À DESCOBERTA DA INGLATERRA

Documentários
À DESCOBERTA DA INGLATERRA
Penso que uma das melhores coisas deste blog, são os excelentes documentários que aqui pode encontrar e que lhe revelarão coisas fascinantes ou perspectivas inesperadas sobre coisas que já conhecia. Aqui fica mais um excelente documentário que lhe irá revelar un País cheio de tradições, história, arquitecturas e belas paisagens. Venha descobrir a Inglaterra.

Áudio: Português
Fontes: Reader's Digest - YouTube

















Documentário
À DESCOBERTA DA INGLATERRA 

 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

OSKAR SCHINDLER - UM JUSTO ENTRE ASSASSINOS

Documentários
OSKAR SCHINDLER - UM JUSTO ENTRE ASSASSINOS
Esta é a biografia de um Nazi que teve a coragem de arriscar a sua vida, o seu bem estar e os seus bens pessoais, e ir contra as normas do seu Partido, salvando mais de um milhar de vidas da morte certa nos campos de concentração. Revelo-lhe aqui como um Nazi conseguiu o respeito e a gratidão de todo o Povo Judeu, porque entendeu que deveria ser um Homem justo, humano, entre assassinos. Quem salva uma vida, salva toda a humanidade.
Mas como por detrás de cada grande homem há uma grande mulher, ou não...(a julgar por esta entrevista) pode também ler aqui uma versão um pouco alternativa desta história, através duma entrevista dada pela esposa de Schindler, Emilie Schindler e que nos conta uma versão um pouco diferente dos acontecimentos.

Áudio: Castelhano e Inglês
Legendas: Espanhol
Fontes: YouTube - Wikipédia - Desatracado






DOCUMENTÁRIO
OSCAR SCHINDLER - O HOMEM POR DETRÁS DA LISTA 



Oskar Schindler

Oskar Schindler
Oskar Schindler, Argentina
Nascimento 28 de abril de 1908
Svitavy, Morávia
 Áustria-Hungria (atual República Checa)
Morte 9 de outubro de 1974 (66 anos)
Hildesheim, Baixa Saxônia
 Alemanha Ocidental
Residência Jerusalém, Israel
Progenitores Mãe: Franziska Luser
Pai: Hans Schindler
Cônjuge Emilie Schindler
Ocupação Industrial
Religião Igreja Católica

Oskar Schindler (Svitavy, 28 de abril de 1908Hildesheim, 9 de outubro de 1974) foi um industrial alemão sudeto, espião e membro do Partido Nazi, que teria salvo da morte 1200 judeus durante o Holocausto,[1] empregando-os nas suas fábricas de esmaltes e munições, localizadas nas actuais Polónia e República Checa, respectivamente. É o tema principal do romance de 1982, Schindler's Ark, e do filme de 1993, Schindler's List, que mostra a sua vida como um oportunista interessado no lucro, inicialmente, mas que acabou por mostrar uma iniciativa e dedicação extraordinárias com o objectivo de salvar as vidas dos seus empregados judeus.
Schindler cresceu em Zwittau, Morávia, e teve vários trabalhos até se juntar à Abwehr, o serviço de informação da Alemanha Nazi, em 1936. Aderiu ao Partido Nazi em 1939. Antes da ocupação alemã da Checoslováquia, em 1938, Schindler recolhia informações sobre caminhos-de-ferro e movimentos de tropas para o governo alemão. Foi preso por espionagem pelo governo checoslovaco, mas foi libertado segundo os termos do Acordo de Munique, em 1938. Schindler continuou o seu trabalho de recolha de informações para os nazis, na Polónia, em 1939, antes da invasão daquele território, no início da Segunda Guerra Mundial.
Em 1939, Schindler obteve uma fábrica de utensilios de cozinha em Cracóvia, Polónia, que empregava 1750 trabalhadores, dos quais cerca de mil eram judeus no auge da fábrica, em 1944. As suas ligações da Abwehr ajudaram Schindler a proteger os trabalhadores judeus de uma deportação certa e da morte nos campos de concentração nazis. De início, Schindler estava apenas interessado em fazer dinheiro fácil com o negócio. Mais tarde começou a proteger os seus trabalhadores sem olhar a custos. Com o tempo, Schindler teve que subornar os oficiais nazis com dinheiros e ofertas de luxo, obtidas no mercado-negro, para manter os seus empregados seguros.
Quando a Alemanha começou a perder a guerra, em Julho de 1944, as Schutzstaffel (SS) começaram a fechar os campos de concentração a leste e a evacuar os restantes prisioneiros para oeste. Muitos foram mortos em campo de concentração de Auschwitz e Gross-Rosen. Schindler convenceu o SS-Hauptsturmführer Amon Göth, comandante do Campo de concentração de Kraków-Płaszów, a transferir a sua fábrica para Brünnlitz, na Região dos Sudetos, poupando, assim, os seus trabalhadores da morte nas câmaras de gás. Utilizando os nomes fornecidos pelo oficial da polícia dos guetos judeus Marcel Goldberg, o secretário de Göth, Mietek Pemper, compilou, e passou a papel, uma lista de 1200 judeus que viajaram para Brünnlitz em Outubro de 1944. Schindler continuou a subornar os oficiais das SS para impedir o massacre dos seus empregados, até ao final da Segunda Guerra Mundial na Europa, em Maio de 1945, altura em que tinha já gasto a sua fortuna em subornos e no mercado-negro para comprar provisões para os seus funcionários.
Schindler foi viver para a Alemanha a seguir à guerra, onde foi apoiado, financeiramente, por organizações judaicas de salvamento. Depois de receber um reembolso parcial pelos seus gastos em tempo de guerra, viajou para a Argentina, com a sua esposa, para uma quinta. Quando entrou em bancarrota em 1958, Schindler deixou a sua mulher e regressou à Alemanha, onde foi mal-sucedido em vários negócios, e teve que ser ajudado pelos seus Schindlerjuden ("Judeus de Schindler") – aqueles cujas vidas ele salvou durante a guerra. Schindler recebeu a designação de Justos entre as nações pelo governo de Israel em 1963, e morreu a 9 de Outubro de 1974.

Primeiros anos e carreira profissional

Schindler nasceu no dia 28 de Abril de 1908 no seio de uma família sudeta, em Zwittau, Morávia, Áustria-Hungria. O seu pai, Johnann "Hans" Schindler, geria uma empresa de máquinas agrícolas, e a sua mãe chamava-se Franziska "Fanny" Schindler (Luser de nascimento). A sua irmã, Elfriede, nasceu em 1915. Depois de frequentar as escolas primária e secundária, Schindler entrou para uma escola técnica da qual foi expulso em 1924 por ter falsificado um relatório. Graduou-se mais tarde, mas não fez o exame Abitur que lhe daria acesso à universidade. Em vez disso, tirou vários cursos em Brno, em diversas áreas, incluindo o de motorista e manuseamento de máquinas, e trabalhou com o seu pai durante três anos. Fã de motociclos desde jovem, Schindler comprou uma Moto Guzzi com um motor de 250 cc de competição, e participou, de forma amadora, em corridas em montanhas nos anos seguintes.[2]
No dia 6 de Março de 1928, casou-se com Emilie Pelzl (1907–2001), filha de um fazendeiro sudeto de Maletein.[3] O jovem casal passou a viver com os pais de Oskar, durante os sete anos seguintes.[4] Pouco depois do casamento, Schindler deixou de trabalhar com o seu pai e passou por diversas ocupações com um cargo na Moravian Electrotechnic e na gestão de uma escola de condução. Depois de passar 18 meses no exército checo, onde chegou ao posto de anspeçada, no 10.º Regimento de Infantaria do 31.º Exército, Schindler regressou à Moravian Electrotechnic, que entrou em falência pouco depois. O negócio da quinta do seu pai também entraria em bancarrota na mesma altura, deixando Schindler desempregado durante um ano. Seguidamente, foi trabalhar para o Jarslav Simek Bank de Praga, em 1931, onde se manteve até 1938.[5]
Entre 1931 e 1932, Schindler foi detido por várias vezes por estar embriagado em público. Também neste período, teve um caso amoroso com Aurelie Schlegel, uma amiga da escola. Desta relação, teve uma filha, Emily, em 1933, e um filho, Oskar Jr, em 1935. Mais tarde, Schindler alegou que o filho não era dele.[6] O pai de Schindler, alcoólico, abandonou a sua esposa em 1935. Esta morreria alguns meses mais tarde vitima de doença prolongada.[4]
Schindler ingressou no partido de natureza separatista em 1935.[7] Embora fosse cidadão da Checoslováquia, Schindler tornou-se espião ao serviço da Abwehr, o serviço de informação da Alemanha Nazi, em 1936. Foi designado para o Abwehrstelle II Commando VIII, com sede em Breslau.[8] Mais tarde diria à polícia checa que o fez porque precisava de dinheiro; por esta altura, Schindler tinha problemas alcoólicos e encontrava-se cheio de dívidas.[9] As suas tarefas para a Abwehr incluíam a recolha de informações sobre os caminhos-de-ferro, instalações militares e movimentação de tropas, tal como o recrutamento de outros espiões na Checoslováquia, em preparação para a invasão deste país pela Alemanha.[10] Foi detido pelo governo checoslovaco por espionagem a 18 de Julho de 1938, e imediatamente preso, mas foi libertado como prisioneiro político sob os termos do Acordo de Munique, o instrumento sob o qual a Região dos Sudetas checoslovaca foi anexada pela Alemanha a 7 de Outubro.[11] [12] Schindler candidatou-se a membro do Partido Nazi a 1 de Novembro e foi aceite no ano seguinte.[13]
Depois de uma pausa para recuperar em Zwittau, Schindler foi promovido a número dois da sua unidade Abwehr, e colocado com a sua esposa em Ostrava, na fronteira checo-polaca, em Janeiro de 1939.[14] Nos meses seguintes, até à tomada total da Checoslováquia por Hitler em Março, Schindler continuou ligado à espionagem. Emilie ajudou-o com a parte burocrática, e com a ocultação de documentos secretos da Abwehr no seu apartamento.[15] Como viajava com frequência para a Polónia, com os seus 25 agentes, Schindler conseguia recolher informação sobre as manobre as linhas de caminho-de-ferro polacas para a invasão da Polónia.[16] Em uma das suas missões, Schindler e a sua unidade tinham como missão monitorizar e enviar informações sobre a linha de caminho-de-ferro, e do túnel, de Jablunkov Pass, uma rota considerada vital para a movimentação das tropas alemãs.[17] TA rota foi capturada intacta pelo 14.º Exército (Wehrmacht) a 1 de Setembro de 1939, nas primeiras horas da Segunda Guerra Mundial na Europa.[18] Schindler continuou a trabalhar com a Abwehr até ao Outono de 1940, quando foi enviado para a Turquia para investigar casos de corrupção entre os oficiais da Abwehr ligados à embaixada alemã naquele país.[19]

Segunda Guerra Mundial

Emalia

A primeira vez que Schindler foi a Cracóvia, foi em Outubro de 1939 tratar de assuntos da Abwehr e, no mês seguinte, alugou um apartamento. Emilie manteve a sua casa em Ostrava e visitava Oskar, em Cracóvia, uma vez por semana.[20] [21] Em Novembro de 1939, Schindler entrou em contacto com o decorador de interiores Mila Pfefferberg para lhe decorar o seu apartamento. O seu filho, Leopold "Poldek" Pfefferberg, passou a ser um dos seus contactos no mercado negro. Ambos acabaram por se tornar amigos de longa data.[22] Também em Novembro, Schindler foi apresentado a Itzhak Stern, um contabilista do seu amigo e agente da Abwehr, Josef "Sepp" Aue, que tinha tomado o controlo do antigo who had taken over Stern's formerly Jewish-owned place of employment as a Treuhander (administrador).[23] Os bens dos judeus polacos, incluindo lojas comerciais e as suas casas, foram arrestadas pelos alemães imediatamente a seguir à invasão, e os cidadãos judeus viram os seus direitos civis retirados.[24] Schindler mostrou a Stern o balanço de uma empresa que tencionava adquirir, uma fábrica de esmaltes chamada Rekord Ltd[nota 1] detida por um consórcio de empresários judeus que tinham declarado a falência no início daquele ano.[25] Stern aconselhou-o a, em vez de gerir a empresa como uma administração, sob as directivas da Haupttreuhandstelle Ost (Gabinete de Administração Principal para o Leste), ele deveria comprar ou arrendar pois, assim, tinha mais liberdade face às ordens dos nazis, incluindo a facilidade de contratar mais judeus.[26] Com o apoio financeiro dos investidores judeus, Schindler assinou um acordo de arrendamento informal a 13 de Novembro de 1939, e formalizou-o a 15 de Janeiro de 1940.[nota 2] Alterou a sua designação para Deutsche Emaillewaren-Fabrik (Fábrica Alemã de Utensílios Esmaltados) ou DEF, e depressa passou a ser conhecida como "Emalia".[27] [28] Inicialmente, recrutou uma equipa de sete trabalhadores judeus (incluindo Abraham Bankier, que o ajudou a gerir a empresa [29] ) e 250 polacos não-judeus.[30] No seu auge, em 1944, o negócio empregava 1750 trabalhadores, dos quais mil eram judeus.[31] Schindler também ajudou a gerir a Schlomo Wiener Ltd, uma distribuidora que vendia os seus artigos de esmaltados, e era arrendatário da Prokosziner Glashütte, uma fábrica de produção de vidro.[32]
As relações de Schindler com a Abwehr, os seus contactos nas Wehrmacht e as suas inspecções ao armamento, permitiram-lhe obter contratos para produzir esmalte para material de cozinha para o exército.[33] Estas ligações também o ajudariam a proteger os trabalhadores judeus da deportação e da morte.[34] Com o passar do tempo, Schindler teve que aumentar o valor das contrapartidas dadas aos oficiais nazis, para manter os trabalhadores a salvo, indo buscá-los ao mercado negro.[35] Bankier, um contacto-chave no mercado paralelo, obtinha bens para suborno e material extra para utilização na fábrica.[36] O próprio Schindler mantinha uma vida de luxo, e de relacionamentos extra-conjugais com a sua secretária, Viktoria Klonowska, e Eva Kisch Scheuer, uma vendedora de artigos esmaltados da DEF.[37] Emilie Schindler visitou Oskar em 1940, por alguns meses, e mudou-se para Cracóvia, em 1941, para ir viver com o seu marido.[38] [39]


Fábrica de Schindler em Cracóvia (2006)
De início, Schindler estava mais interessado no potencial financeiro do negócio, e contratou os judeus porque eram mais baratos que os polacos – os salários eram definidos pelo regime nazi.[40] Mais tarde, começou a proteger os seus trabalhadores sem olhar a custos.[41] O estatuto da sua fábrica, considerada essencial pra o esforço de guerra, tornou-se um factor decisivo que lhe permitiu ajudar os funcionários judeus. Quando os Schindlerjuden (Judeus de Schindler) eram ameaçados com a deportação, Schindler defendia-os alegando que eles eram essenciais, e pedindo isenções. As esposas, crianças e até pessoas com deficiências, eram consideradas por Schindler como necessárias para o trabalho mecânico e para manusear as máquinas.[41] Duma dada ocasião, a Gestapo exigiu a Schindler que este entregasse uma família que tinha falsificado os seus documentos de identificação. "Três horas depois, eles entraram," disse Schindler, "dois homens bêbedos da Gestapo saíram do meu escritório sem os prisioneiros, e sem os documentos suspeitos que eles exigiram."[42]
A 1 de Agosto de 1940, o governador Hans Frank emitiu um decreto a requerer que todos os judeus de Cracóvia deixassem a cidade nas duas semanas seguintes. Apenas aqueles que tivessem trabalho directamente relacionado com o esforço de guerra alemão, poderiam ficar. Dos 60 000 a 80 000 judeus que viviam na cidade, apenas 15 000 permaneceram, em Março de 1941. Estes judeus foram , então, forçados a deixar a sua habitual morada em Kazimierz, e foram realojados no Gueto de Cracóvia, construído no distrito industrial de Podgórze.[43] [44] Os trabalhadores de Schindler iam para o trabalho a pé, todos os dias.[45] Nos quatro anos que Schindler esteve à frente da fábrica, fez vários melhoramentos nas infra-estruturas, entre as quais uma clínica, uma cooperativa e uma sala de jantar para os trabalhadores, para além de uma expansão da zona de produção e dos escritórios.[46]

Plaszow

No Outono de 1941, os nazis começaram a retirar os judeus do gueto. Muitos deles foram levados para o campo de extermínio de Bełżec e mortos.[47] A 13 de Março de 1943, o gueto foi destruído, e aqueles que ainda se encontravam em condições para trabalhar, foram enviados para para o novo campo de concentração de Plaszow.[48] Vários milhares demasiado fracos para trabalhar, foram enviados para os campos de extermínio e mortos. Várias centenas foram mortos nas ruas pelos nazis à medida que esvaziavam o gueto. Schindler, informado sobre esta situação através dos seus contactos na Wehrmacht, manteve os seus trabalhadores na fábrica para impedir qualquer acção contra eles.[49] Schindler testemunhou a destruição do gueto e ficou horrorizado. A partir daí, diz um dos Judeus de Schindler, Sol Urbach, Schindler "mudou a sua visão sobre os nazis. Decidiu ir-se embora e salvar o máximo de judeus que lhe fosse possível."[50]
O campo de concentração de Plaszow abriu em Março de 1943 no local de dois antigos cemitérios judaicos na rua Jerozilimska, a cerca de 2,5 km da fábrica da DEF.[51] O responsável do campo era o SS-Hauptsturmführer Amon Göth, um homem duro e sádico, que matava os reclusos do campo de forma aleatória.[50] Os reclusos de Płaszów viviam em constante pânico com medo de morrerem.[52] Emilie Schindler chamava a Göth "o homem mais desprezível que eu já conheci."[53]


Hujowa Górka, local de execuções no campo de concentração de Plaszow (2007)
De início, o plano de Göth era passar todas as fábricas, mesmo a de Schindler, para o interior dos campos.[54] No entanto, Schindler, numa combinação de diplomacia, lisonja e suborno, não só impediu que a sua fábrica fosse recolocada, mas conseguiu convencer Göth a construir (às suas custas) um a sub-campo em Emalia, para acolher os seus trabalhadores e mais 450 judeus de outras fábricas das proximidades. Neste novo local de abrigo, ficavam a salvo das execuções arbitrárias, eram bem alimentados, e podiam mesmo realizar os seus serviços religiosos.[55] [56]
Schindler foi detido por duas vezes por suspeita de operações no mercado negro, e uma vez por violar as Leis de Nuremberg por ter beijado uma rapariga judia, um acto proibido pela Lei da Raça e do Restabelecimento. A primeira detenção, no final de 1941, levou-o a passar uma noite na prisão. A sua secretária conseguiu tirá-lo da prisão através dos contactos de Schindler no partido nazi. Da segunda vez, a 29 de Abril de 1942, a causa da detenção de Schindler foi por este ter beijado uma jovem judia, na face, num aniversário na fábrica, no dia antes. Ficou na prisão durante cinco dias antes das suas influências no seio dos nazis o tirarem da prisão.[57] A terceira detenção, em Outubro de 1944, deveu-se a ter sido acusado de fazer negócios no mercado negro e de subornar Göth, e outros, para melhorar as condições de trabalho dos trabalhadores judeus. Ficou detido cerca de uma semana.[58] Göth tinha sido preso a 13 de Setembro de 1944 por corrupção e outros abusos de poder, e a detenção de Schindler fez parte da investigação acerca das actividade de Göth.[59] Göth não chegou a ser condenado pelas acusações, mas foi enforcado por crimes de guerra no dia 13 de Setembro de 1946.[60]
Em 1943, Schindler foi contactado por líderes sionistas de Budapeste através de membros da resistência judaica. Schindler viajou, por diversas vezes, a Budapeste para relatar, na primeira pessoa, o tratamento que os nazis estavam a impor aos judeus. No regresso trouxe fundos entregues pela Agência Judaica, e passou-os à resistência judaica.[61] [62]

Brünnlitz

À medida que o Exército Vermelho se aproximava em Julho de 1944, as SS deram início ao encerramento dos campos de concentração mais a leste, e a enviar os restantes prisioneiros para oeste, para Auschwitz e Gross-Rosen. O secretário pessoal de Göth, Mietek Pemper, alertou Schindler sobre o plano nazi de encerrar as fábricas não envolvidas directamente no esforço de guerra, incluindo a de Schindler. Pemper sugeriu que Schindler devia alterar a sua produção de material de cozinha para granadas anti-tanque tentando, assim, salvar as vidas dos trabalhadores judeus. Usando de subornos e do seu poder de persuasão, Schindler convenceu Göth, e os oficiais em Berlim, a mudar a sua fábrica, e respectivos trabalhadores, para Brünnlitz (em checo: Brněnec), na Região dos Sudetas, salvando-os da morte nas câmaras de gás. Utilizando os nomes fornecidos pelo oficial da Polícia dos Guetos Judaicos Marcel Goldberg, Pemper compilou uma lista de 1200 judeus—1000 trabalhadores de Schindler, e 200 da fábrica de têxteis de Julius Madritsch—que tinham sido enviados para Brünnlitz em Outubro de 1944.[63] [64] [65] [66]

Fábrica de Schindler em Brünnlitz (2004)
A 15 de Outubro de 1944, 700 homens da lista de Schindler foram enviados para o campo de concentração de Gross-Rosen, onde ficaram uma semana antes de serem reenviados para a fábrica em Brünnlitz.[67] O mesmo se passou com 300 mulheres da lista que foram levadas para Auschwitz, e que ficaram em risco de serem enviadas para as câmaras de gás. No entanto, as habituais influências e subornos de Schindler fracassaram na sua libertação. Por fim, enviou a sua secretária, Hilde Albrecht, com subornos do mercado negro como alimentos e diamantes, e as mulheres foram levadas para Brünnlitz após difíceis semanas passadas em Auschwitz.[68]
Para além dos trabalhadores, Schindler levou 250 vagões carregados de máquinas e matérias primas para o local da nova fábrica.[69] Poucos, ou mesmo nenhuns, projécteis de artilharia foram produzidos na fábrica. Quando os oficiais do Ministério do Armamento questionaram o baixo nível de produção da fábrica, Schindler comprou produtos acabados no mercado paralelo e vendeu-os como sendo dele.[70] As rações fornecidas pelas SS eram insuficientes para todos os trabalhadores, o que levou Schindler a passar muitos do seu tempo em Cracóvia, a comprar comida, armamento e outros materiais. A sua esposa Emilie permaneceu em Brünnlitz a obter, de forma escondida, rações adicionais e a tratar da saúde dos trabalhadores e de outras necessidades básicas.[71] [72] Schindler também conseguiu transferir cerca de 3000 mulheres judias de Auschwitz para pequenas fábrica de produtos têxteis na Região dos Sudetas, num esforço para aumentar as suas hipóteses de sobreviver à guerra.[73] [74]
Em Janeiro de 1945, um comboio com 250 judeus que tinham sido rejeitados como trabalhadores numa mina em Goleschau, na Polónia, chegaram a Brünnlitz. As portas do comboio tinham congeladas à sua chegada, e Emilie Schindler teve que esperar que um técnico da fábrica abrisse as portas com um maçarico. Doze pessoas tinham morrido no interior do comboio, e as restantes estavam demasiado frágeis para trabalhar. Emilie levou os sobreviventes para a fábrica e cuidou deles num hospital improvisado até ao final da guerra.[75] [74] Schindler continuou a subornar os oficiais das SS para impedir a matança dos seus trabalhadores à medida que o Exército Vermelho se aproximava.[76] No dia 7 de Maio de 1945, ele e os seus trabalhadores juntaram-se no rés-do-chão da fábrica para ouvirem o Primeiro.ministro britânico, Winston Churchill, anunciar na rádio a rendição alemã.[77]

Pós-guerra


Sepultura de Schindler em Jerusalém. A inscrição em língua hebraica diz: "Justos entre as nações"; a inscrição em alemão diz: "Salvador Inesquecível de 1200 Judeus Perseguidos".
Sendo membro do partido nazi e do serviço de informação Abwehr, Schindler estava em risco de ser preso como criminoso de guerra. Bankier, Stern e muitos outros, prepararam uma declaração que ele podia apresentar aos norte-americanos relatando o seu papel na ajuda prestada para salvar as vidas dos judeus. Também lhe foi entregue um anel, feito de um dente em ouro retirado de um Schindlerjude, Simon Jeret. O anel tinha inscrito "Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro."[78] Para escapar à captura pelos russos, Schindler e a sua esposa partiram em direcção a oeste no seu automóvel, um Horch de dois lugares; pendurados no carro, seguiam mais soldados alemães, que também fugiam. Um camião onde ia a amante de Schindler, Marta, vários trabalhadores judeus e uma carga de produtos do mercado negro, seguia atrás. O Horch foi confiscado pelas tropas russas, em Budweis, as quais já controlavam a cidade. Os Schindler acabaram por não conseguir levar um diamante que Oskar tinha escondido depois no assento.[79] Continuaram de comboio e a pé até chegarem às linhas americanas na cidade de Lenora, e seguiram para Passau, onde um oficial norte-americano judeu lhes conseguiu arranjar transporte para a Suíça de comboio. No Outono de 1945, viajaram para a Baviera, na Alemanha.[80]
No final da guerra, Schindler tinha gasto toda a sua fortuna em subornos e na aquisição de produtos no mercado paralelo para ajudar os seus trabalhadores.[81] Sem meios de subsistência, viveu por pouco tempo em Regensburg e, mais tarde, em Munique, mas não conseguiu ter sucesso no pós-guerra. De facto, passou a viver da ajuda das organizações judaicas.[41] Em 1948, apresentou uma reclamação para ser reembolsado das suas despesas do tempo de guerra à American Jewish Joint Distribution Committee, tendo recebido 15 000 dólares.[82] Ele tinha estimado os seus gastos em mais de 1 056 000 de dólares, incluindo os custos da construção de infraestruturas nos campos, subornos, e produtos do mercado negro.[83] Schindler emigrou para a Argentina, em 1949, onde tentou criar galinhas e ratos de poças de água, um pequeno animal criado para aproveitamento do seu pelo. Quando o negócio faliu, em 1958, deixou a sua esposa e regressou à Alemanha, onde teve vários projectos de negócio, como uma fábrica de cimento, mas qualquer um sem sucesso.[84] [85] Em 1963, declarou bancarrota e sofreu um ataque cardíaco no ano seguinte, o que o deixou um mês no hospital.[86] Mantendo-se sempre em contacto com muitos dos judeus que ele conheceu durante a guerra, incluindo Stern e Pfefferberg, Schindler sobrevivia à custa de donativos enviados pelos Schindlerjuden de todo o mundo.[85] [87] Schindler morreu no dia 9 de Outubro de 1974, e foi sepultado em Jerusalém, no Monte Sião, sendo o único membro do Partido Nazi a receber esta honra desta natureza.[41] [85] Pelas suas acções durante a guerra, em 1963 Schindler recebeu o título de Justos entre as nações, uma honra atribuída pelo Estado de Israel a não-judeus que tiveram um papel activo para salvar judeus durante o Holocausto.[88] Outras honras incluem a Ordem de Mérito alemã (1966).[89]
O escritor Herbert Steinhouse, que o entrevistou em 1948, escreveu que "os actos excepcionais de Schindler tiveram origem nesse elementar sentido de decência e humanidade em que a nossa época, tão sofisticada, raramente acredita. Um oportunista arrependido viu a luz e revoltou-se contra o sadismo e contra a vil criminalidade à sua volta."[41] Em 1983, num documentário televisivo, Schindler foi referido como tendo afirmado: "Senti que que os judeus estavam a ser destruídos . Tinha que os ajudar; não havia escolha."[90]
A sua história foi contada em livro (Schindler's Ark) por Thomas Keneally e, posteriormente filmada por Steven Spielberg (A Lista de Schindler) no ano de 1993. Este filme é considerado pelo próprio Spielberg e pela crítica como sua obra-prima, e apontado entre os dez melhores filmes da história de Hollywood. O filme foi filmado em preto-e-branco para criar um efeito sombrio e ambientar-se à história retratada. O filme foi o vencedor do Óscar de Melhor Filme em 1994.

Legado

Filmes e livros


Em 1951, Poldek Pfefferberg foi falar com o realizador Fritz Lang e propôs-lhe fazer um filme sobre Schindler. Também por iniciativa de Pfefferberg, em 1964 Schindler recebeu um montante de 20 000 Usd da MGM por um documentário que seria intitulado To the Last Hour. Nenhum dos filmes chegou a ser feito, e Schindler acabou por gastar todo o dinheiro da MGM.[91] [92] Na década de 1960, a MCA da Alemanha e a Walt Disney Productions em Viena, também falaram com Schindler, mas, de novo, sem nenhum resultado.[93]
Em 1980, o autor australiano Thomas Keneally visitou, por mero acaso, a loja de malas de Pfefferberg em Beverly Hills , quando se dirigia para casa para depois partir para a Europa para um festival de cinema. Pfefferberg aproveitou a visita para contar a Keneally sobre a história de Oskar Schindler. Entregou-lhe cópias de alguns documentos, e Keneally decidiu elaborar um livro sobre a história. Após uma pesquisa aprofundada e entrevistas com sobreviventes Schindlerjuden, o seu romance histórico de 1982 Schindler's Ark (publicado, também, como Schindler's List) foi o resultado.[94]
O romance foi adaptado para o filme de 1993, Schindler's List por Steven Spielberg. Depois de adquirir os direitos em 1983, Spielberg não se sentiu confiante, tanto a nível profissional como pessoal, para levar o projecto para a frente, e ofereceu os direitos a outros realizadores.[95] Depois de ter lido um argumento para o projecto preparado por Steven Zaillian para Martin Scorsese, decidiu então trocar com ele o Cape Fear pela biografia de Schindler.[96] No filme, a personagem de Itzhak Stern (desempenhada por Ben Kingsley) é uma mistura de Stern, Bankier, e Pemper.[29] Liam Neeson foi nomeado para Melhor Actor pelo seu papel como Schindler no filme, o qual ganhou sete Óscares, incluindo Melhor Filme.
Outros filmes incluem um documentário britânico de 1983 produzido por Jon Blair para a Thames Television, com o títuloSchindler: His Story as Told by the Actual People He Saved,[97] [98] e, em 1998, um programa biográfico na A&E Biography, Oskar Schindler: The Man Behind the List.[99]

A mala de Schindler

Em 1997, uma mala pertencente a Schindler contendo fotografias e documentos históricos, foi descoberta no sótão da casa de Ami e Heinrich Staehr em Hildesheim. Pouco tempo antes da sua morte, Schindler tinha ficado uns dias em casa do casal. O filho de Staehr, Chris, levou a mala para Estugarda, onde os documentos foram analisados ao detalhe, em 1999, pelo Dr. Wolfgang Borgmann, editor de ciência no Stuttgarter Zeitung. Borgmann escreveu um conjunto de sete artigos publicados entre 16 e 26 de Outubro de 1999 e, mais tarde, reunidos no livro Schindlers Koffer: Berichte aus dem Leben eines Lebensretters ; eine Dokumentation der Stuttgarter Zeitung (A mala de Schindler: Relatório sobre a vida de um salvador). Os documentos e a mala foram enviados para o museu do Holocausto em Yad Vashem, Israel, em Dezembro de 1999.[100]

Cópias da lista


Secretária de Schindler na Emalia junto de um compartimento cheio de pratos, panelas e outro material feito na fábrica, com uma cópia da sua lista no interior.
No início de Abril de 2009, uma cópia de uma versão da lista foi descoberta na Biblioteca Estatal de Nova Gales do Sul, na Austrália, por trabalhadores que se encontravam a encaixotar material guardado do autor Thomas Keneally. O documento de 13 páginas, amarelo e frágil, encontrava-se arquivado entre outros papeis e jornais. A lista foi entregue a Keneally em 1980 por Pfefferberg quando aquele o estava a convencer a escrever a história de Schindler. Esta versão da lista continha 801 nomes, e era datada de 18 de Abril de 1945; Pfefferberg está referido como o trabalhador n.º 173. Existem algumas versões verdadeiras da lista pois os nomes foram escritos à máquina por várias vezes, à medida que as condições se iam alterando nos dias agitados do final da guerra.[101]
Uma das quatro cópias existentes da lista foi oferecida num leilão de dez dias, com início em 19 de Julho de 2013, no EBay, a um preço de reserva de 3 milhões de dólares.[102] No entanto, não recebeu qualquer oferta.[103]

Outros objectos de colecção

Em Agosto de 2013, uma carta de uma única página assinada por Schindler em 22 de Agosto de 1944, foi vendida num leilão via internet por 59 135 Usd. A carta mostra a permissão dada por Schindler a um supervisor de fábrica para transferir equipamento para a Checoslováquia. Anteriormente, o mesmo comprador anónimo já tinha adquirido mais documentos da fábrica de Kraków por 63 426 Usd.



 

ENTREVISTA A EMILIE SCHINDLER - ESPOSA DE OSKAR SCHINDLER

Nesta entrevista concedida à publicação Brasileira Folha, Emilie dá a sua opinião sobre o filme de Spielberg e sobre os acontecimentos reais nele retratados.

Oskar Schindler era um estúpido, diz sua esposa

Folha: Como foi a participação do seu marido na história filmada por Steven Spielberg?
Emilie: Eu conheci Spielberg agora, quando fui a Jerusalém participar do filme. É um moço simpático, me tratou bem. Mas o filme está errado. O livro ("Schindler's Ark", de Kennealy) em que se baseou não é bom. Há muita coisa inventada. Não foi Schindler, fui eu. Schindler não fazia nada, era um pobre coitado.

         

Folha: Mas ele não salvou 1.200 pessoas, 1.200 judeus, durante o nazismo?
Emilie: É verdade que ele fez a lista, mas é também verdade que eu arrumava a comida. Schindler só dizia: "Façam isso, façam aquilo!" Schindler não fazia nada, não sabia nada. Era eu quem cuidava deles.

Folha: A senhora os conhecia?
Emilie: Não. Eu só arrumei a comida. Uma vez, Schindler foi comprar farinha. Não havia farinha. Estávamos em 1944, não havia comida nem para os alemães. A comida era racionada e ele tentou trocar diamantes por comida. Não deu certo. Aí, eu fui conversar com uma mulher, uma nobre, que era dona de um moinho, e ela me disse para ir com um caminhão da fábrica buscar farinha. E nós fomos. A fábrica ficava ao lado do moinho. O caminhão saiu de um portão e entrou no outro. Vivemos meses com aquela comida.

Folha: E seu marido?
Emilie: Bom, ele arrumou vodca polonesa e eu troquei aquela vodca por aveia com um funcionário do moinho. Também ajudou. Eu ainda consegui carne. Troquei com um veterinário que arrumava carne de animais mortos, feridos. Ele queria café e nós tínhamos café. Aguentamos.

Folha: Quando os russos chegaram, em maio de 1945, como foi?
Emilie: Terrível! Os nazistas, os SS, fugiram todos. Entraram num caminhão com um monte de secretárias e fugiram. Não sei se algum sobreviveu. Dos operários, sei que sobreviveram muitos, alguns dos quais eu reencontrei em Jerusalém. Na hora, foi cada um para o seu lado. Nós fomos para a Alemanha. Foram tempos bem difíceis; depois, viemos para a Argentina.

Folha: Onde a senhora conheceu Oscar?
Emilie: Schindler e eu éramos da mesma região, dos Sudetos, na época, Império Austríaco. Hoje, é Tcheco-Eslováquia (Na verdade, a Tchecoslováquia foi desmembrada em dois países e Emilie vem de onde fica a República Tcheca). Fica perto de Pilsen. Vivemos sempre lá, até a anexação pelos alemães. Minha família e a dele eram de fala alemã. Em  1939, fomos para a Polônia, para Cracóvia. Eu fiquei vivendo lá e Schindler depois foi para outra cidadezinha, onde ficava a fábrica. Eu nunca fui lá.

Folha: E depois da guerra?
Emilie: Viemos para a Argentina, depois de uma época na Alemanha. Tínhamos uma granja, uma pequena propriedade aqu em San Vicente (uma cidadezinha da periferia de Buenos Aires, cheia de chácaras e pequenos sítios). Schindler era um doido. Queria uma criação de martas para vender a pele. Eu disse que não ia dar certo. Não deu. Um dia, ele disse que iria à Alemanha, buscar o dinheiro da indenização. Nunca voltou. Soube dele muito depois. Morreu e foi enterrado em Jerusalém. Era um homem estranho.

Folha: E a senhora?
Emilie: Eu fiquei por aqui. Em 1962, 1963, vendi a propriedade para pagar as dívidas que Schindler tinha deixado. Se não fosse pela B'Nai Brit (uma organização de ajuda da comunidade judaica), que me arrumou esta casa e o terreno, não sei como estaria.

Folha: Os judeus ajudaram?
Emilie: Foi. Eles sabiam da história. Eu tinha muitos conhecidos judeus. Um deles, Simon Muchnik, era meu médico. Era uma boa pessoa, muito respeitado. Eles me ajudaram. Eu vim para cá, criei bois naquele quintal lá do fundo, criei galinhas, plantei. Sobrevivi.

Folha: Onde a senhora aprendeu a cuidar de animais?
Emilie: Meus pais eram agricultores. Se não fosse por isso, pela minha habilidade com animais e plantas, não sei como teria sobrevivido.

Folha: A senhora tem filhos, parentes?
Emilie: Não tenho filhos. Só gatos e um cachorro. Tenho uma sobrinha por parte do Schindler, que eu cuidei depois da guerra e que já veio aqui uma vez, me visitar. Fomos juntas a Foz de Iguaçu. Tenho amigos que vivem em Nova York. Fui quatro vezes lá. Devo ir de novo, no final do ano, ver o filme.

Folha: O que a senhora acha do seu marido?
Emilie: Olha, eu não penso nele. Ele era meio louco. Um estúpido. 

domingo, 5 de junho de 2016

OS MISTÉRIOS DE JAVIER SIERRA

Grandes Mistérios da Humanidade
OS MISTÉRIOS DE JAVIER SIERRA
Tentei reunir aqui alguns dos maiores mistérios da humanidade, analisados em diversos programas de TV do investigador e escritor Javier Sierra, autor de inúmeros "Best-Sellers" e um dos maiores investigador desses mistérios e fenómenos que nos intrigam e apaixonam a todos os que amamos o mistério. Serão abordados aqui, diversos fenómenos e mistérios como os segredos dos Monges Shaolin; a nacionalidade e os mistérios que envolvem Cristovão Colombo; os Templários: o Santo Sudário; mistérios do Vudu e Santeria; pessoas com Sexto Sentido; Mistérios da Bíblia; e outros...!

Áudio: Castelhano
Fontes: YouTube - Telemadrid - Antena 3






MISTÉRIOS DOS MONGES SHAOLIN 

Programa "O Outro Lado da Realidade" acerca dos mistérios do Thai Chi e dos isteriosos poderes dos sagrados Monges Shaolin. Este programa tem ainda a particularidade de ter a participação de Juan Carlos Aguilar, 3 vezes Campeão Mundial de Kung Fu e 8 vezes campeão de Espanha, que se pensava à data ser um Monge Shaolin. Mais tarde viria-se a descobrir que Juan Carlos era um falso monge Shaolin e foi preso e condenado por ser um assassino em série, tendo protagonizado um dos episódios negros do crime que chocou a Espanha.






OS MISTÉRIOS DE CRISTÓVÃO COLOMBO 

Programa O Outro Lado da Realidade, dirigido por Javier Sierra onde se analisam os mistérios referentes ao Navegador Cristóvão Colombo. Ao programa vem especialistas responsáveis pela exumação do corpo do navegador existente em Espanha e especialistas pela análise aos ossos, jornalistas investigadores e outros, que tentarão esclarecer se os restos mortais existentes em Espanha pertencem realmente a Cristóvão Colombo.







MISTÉRIOS DO SANTO SUDÁRIO 

Programa O Outro Lado da Realidade, dirigido pelo escritor, investigador Javier Sierra e que nos revelam os mistérios referentes com o Santo Sudário de Turin e a sua veracidade.





EXTRATERRESTRES NA ANTIGUIDADE